CONSTANTINO ACORDOU SENTINDO-SE estranhamente leve. Acariciou cuidadosamente a superfície lisa de sua testa. Estaria sonhando? Pôs-se de pé num alto e foi ao encontro do espelho. O que viu ali o encheu de júbilo. Não havia ali senão a sua própria testa reluzente. Nenhum sinal dela. Beliscou-se para ver se estava sonhando. Não, não estava. Acariciou muitas vezes a testa lisa, a calvície triste. Sentiu vontade de gritar, dançar. Correu para avisar Joanna Faqquir que a Vagina havia finalmente partido. Tal qual foi sua surpresa ao saber que o Pênis também havia ido embora. O semblante de Joanna não era tão festivo quanto o de Constantino, mas ela sorria, de certo modo.
"Se foram! Se foram!" Gritava eufórico, Constantino.
"Cedo ou mais tarde eles partiriam, meu querido." Disse Joanna acariciando o seio esquerdo que outrora abrigava o Pênis.
"E não acha isso bom?"
"Me sinto um pouco vazia."
"Não se sentirá mais. Estarei com você."
Dizendo isso, ele a abraçou com ternura.
"Só não entendo porque eles demoram tanto em nos deixar."
"É que se apegam muito a gente." Explicou Joanna.
"Mas por que?"
"Acho que temos algo de diferente que os fascina. Algo que eles talvez busquem. Sildomar nunca me disse o que buscava. Mas eu o compreendia, assim como ele a mim."
Constantino piscou muitas vezes.Parecia não parar nunca mais de piscar.
"É, acho que no fundo sentirei falta dela também."
Todos no circo ficaram muito tristes com a partida dos membros, inclusive o mágico Castilho que tanto adorava a amiga Vagina.
"Ela vai mandar postais. Faz isso sempre quando parte." Disse o mágico com os olhos marejados de diamantes. Um velho truque para disfarçar suas lágrimas. Seu Boaventura, ao saber do ocorrido, lamentou muito, pois como a maioria, afeiçoara-se muito ao casal.
"E então, meu jovem? O que fará da vida, agora que a Vagina se foi?"
"Ainda não sei, seu Boaventura. Acho que voltar para casa."
"O circo agora é o seu lar. Fique conosco." Constantino sorriu meio sem jeito.
"Agora que a Vagina partiu, não há mais razão de eu permanecer aqui. Não servia de nada além de um pedestal para sua existencia. Um mero figurante de uma tragicomédia."
"Pense no que vai fazer daqui pra frente. O circo está de braços abertos."
Disse isso dando uns tapinhas de leve nas costas de Constantino.
No entanto, a parte mais difícil e dolorosa seria efetivamente convencer Joanna Faqquir a largar o circo e partir com ele.
"Não posso, Constantino, e sabes disso."
"Mas por que?"
"O circo é a minha vida." Disse ela naquela tarde melancólica de maio.
"Então não há outro jeito. Temos que nos separar."
Abraçou-a tão forte que quase a partiu em duas.
Aproveitando a ocasião em que o Circo Guernica estava de volta á provinciazinha, Constantino despediu-se de todos. Estava decidido mesmo a não ficar, por mais penoso que fosse, pois que ali fizera muitos amigos. Todos no circo vieram despedir-se dele: Seu Boaventura, o mágico Castilho, as gêmeas pitonisas, os palhaços todos e demais artistas. Joanna Faqquir não lhe viera dizer adeus. "Até melhor assim",refletiu ele. Seu Boaventura desejou-lhe muita sorte e ainda insistiu uma última vez para que ele ficasse, mas ele permanecia firme em seu intento. O curioso é que no meio daquela gente toda, um anão puxou-lhe timidamente o cós de sua calça. Constantino voltou-se surpreso para ele:
"Pires?"
"Olá, Constantino!"
"Mas o que faz aqui?"
"Procurando emprego. Também fui despedido da firma."
"E o que vai fazer agora?"
"Virar anão de circo. Já falei até com o dono, o seu Boaventura. Parece um sujeito de alma grande.
"Tenha certeza disso. Boa sorte, amigo!"
E Constantino partiu.
***
O TEMPO PASSOU E CONSTANTINO FINALMENTE conseguiu um novo emprego voltando a exercer a velha função de almoxarife em uma outra repartição. O Salário era bem melhor que o anterior e ele pôde alugar um canto decente para morar e voltar a escrever um novo livro. Um novo absurdo. Chamar-se-ia - já o tinha em mente, inclusive - O Homem com a abertura na testa." em homenagem a amiga Vagina que, de certo modo, lhe ensinara um pouco sobre os mistérios da vida e o fizera crescer.
E por falar nela, recebeu outro dia um postal de Katmandu e outro do Egito em que ela e o Pênis pousavam sorridentes nos corpos de um casal de turistas noruegueses que pareciam não se importarem muito com a aparição deles. Mandava-lhe também um beijo de carinho e de saudades bem no centro de sua testa.
fim
(agradeço com carinho aos que acompanharam essa novela)
"O Homem que perdeu o Cu" já está sendo postado no http://www.ohomemqueperdeuocu.wordpress.com/
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
domingo, 13 de fevereiro de 2011
PARTE XIX - A ESTREIA DE CONSTANTINO E A VAGINA E A CHEGADA DE JOANNA FAQQUIR COM O SEGREDO QUE TRAZIA NO PEITO
A ESTREIA DE CONSTANTINO COMO ERA DE SE ESPERAR, foi tensa e embaraçosa. Tudo que ele tinha que fazer era ficar ali sentado, no centro do picadeiro, enquanto a Vagina contava piadas e arrancava risos e aplausos do público. As crianças, boquiabertas, eram as que mais gostavam, sobretudo no último número em que ela engolia as espadas ao som de The House of Rising Sun. Os olhos arregalados de Constantino imploravam por socorro enquanto as espadas sumiam em sua testa, tragadas até o cabo. Era sem dúvida um espetáculo dantesco, mas, que no final, a plateia rompia em gritos e aplausos. Acabaram tornando-se a atração principal do circo, causando frenesi e atraindo multidões por onde passavam:
CIRCO GUERNICA APRESENTA:
O HOMEM COM A ABERTURA NA TESTA
As apresentações não só empolgavam a multidão como passaram a render bons lucros ao seu Boaventura e a sua companhia. Apesar da fama e de um considerável salário que recebiam, o casal sentia-se muito triste e abatido e só eles sabiam o motivo. O mágico Castilho também, e por essa razão tentava animá-los com suas mágicas engraçadas e com sua irreverencia. Havia também as gêmeas pitonisas que, ao modo delas, procuravam ajudar também, adivinhando-lhes um destino de flores. Mas não adiantava muito não. Decorreram-se dias, meses com o Guernica viajando pelos lugarejos mais longínquos e exóticos daquela região tropical.
Um dia, porém, o circo recebeu a visita tímida e misteriosa de uma jovem de magreza e exotismo notáveis. Chamava-se Joanna e se dizia uma Faquir. Posto a par de suas habilidades na cama de pregos, seu Boaventura a contratou, embora achasse que não havia mais tanto interesse por artistas da fome. Tempos atrás - coisas de décadas - sim, compensava o esforço de promover tais exibições, hoje era quase impossível. Os tempos eram outros. Os circos também. Não obstante, seu Boaventura não concebia a ideia de ver tantos artistas e gentes comuns morrerem á míngua por falta de emprego. Cumpre lembrar que seu Boaventura era de um coração do tamanho da lona que os cobria, e todos naquela companhia o tinham como um pai.
O Guernica, portanto, acolhia a todos, até mesmo as adivinhas também tão esquecidas pelos circos modernos.
Joanna Faqquir, como gostava de ser chamada, escondia um segredo. Temia que ele viesse atrapalhar seu progresso no circo. Também compartilhava a mesma ideia acerca da modernização dos circos. Eles haviam de fato, perdido a ternura. Decerto, achariam uma aberração o que ela trazia no peito. Ninguém entenderia Sildomar e ela não o exporia a uma situação vexatória, não ele que a ajudou muito nos momentos mais dificeis de sua vida. Refletia ela em noites penosamente em claro. Seguiu com seu segredo, muito embora precisasse confira-lhe a alguém.
Quando soube que a atração principal do circo era um homem com uma vagina na testa, cogitou tratar-se de mais um desses ilusionistas baratos que se aproveitavam da boa fé do público, e portanto, não deu muita importancia. Foi só através do mágico Castilho que ela convenceu-se de que não se tratava de truque algum, que a vagina era real e que tinha uma alma circence. Revelou seu segredo apresentando Siuldomar ao mágico:
"Prazer, cavalheiro." Disse o Pênis com polidez, pois que também falava.
"Sildomar é mais que um amigo. Tem me ajudado a preencher o vazio dos meus ossos."
"Bondade dela. Não faço nada além de minha obrigação."
Diante daquilo, oc coração do mágico fraternizou-se. Pensou em Constantino e na amiga Vagina. Levou as novas pessoalmemente. Constantino quando viu Joanna, encantou-se. Mjuito mais Cíntia por Siuldmar e viceversa. O dia transcorreu com os quatro a conversarem por horas a fio até a noite vir abraça-los:
"Há quanto tempo tem ele no seio?" Perguntou Constantino.
"Há um ano e meio. E você com ela na testa?"
"Vai fazer um ano."
"São adoráveis, não são?" Constantino abriu um sorriso.
"Nen tanto. No começo foi difícil. É muito geniosa esta aqui. Fez-me perder o emprego, por isso vim parar no circo."
"Ao contrário de Sildomar. Sempre muito gentil e compreensivo desde o início. Aprendo muito com ele. Até xadrez ensinou-me a jogar. Tem uma paciência do tamanho do mundo."
"Mas por que o seio esquerdo?" Quis saber Constantino.
"É que ele é... maxista."
"Marxista, você quer dizer."
"É, alguma coisa assim."
Enquanto isso, o Pênis apontava para o firmamento explicando as estrelas. Tinha amor pela física tanto quanto pelas palavras. Uma vez perguntado sobre o amor, por uma das irmãs pitonisas, abriu mão da filosofia deixando a Vagina enrubescida e de lábios abertos.
"O verdadeiro amor não está na superficialidade do coração, e sim nas ações do homem, sejam elas boas ou más."
Constantino ouvindo aquilo, intrigou-se:
"Por acaso o amigo quer nos dizer que um crime justifica uma ação amorosa."
"O bom crime é louvável, sim, desde que sirva ao bem geral da humanidade." Respondeu o Pênis.
"Sildomar é um poeta." Acudiu Joanna Faqquir, com voz maternal.
"Tá me parecendo Dostoievsky. " Ruminou Constantino, coçando o queixo."
"Certamente que o li, meu nobre, e não nego que Raskolnikov tem me ajudado muito em meu tratado."
"Sildomar está escrevdndo um romance, não é querido?" Tornou Joanna.
"Um tratado, querida. Um tratado sobre a reivenção do amor." Corrigiu ele. E colocando-se mais ereto, sem envergar-se um centimetrozinho que fosse, estendeu-se um pouco mais com suas teorias, sem tornar-se enfadonho. Tinha sem dúvida o dom da oratória e a ousadia das ideias. Não tardou para a Vagina derramar-se de encantos e amores por ele e ele por ela.O mesmo sentimento ocorria com Joanna Faqquir e Constantino. Sempre ao término das apresentações, eram vistos caminhando esquecidos do mundo, pelas pracinhas, feiras ou mesmo pelos arredores do circo, sob o luar prateado. Chamavam sempre atenção por onde passavam:
"Olha mãe! O homem com o buraco na testa!" Gritou certa vez uma criança.
"Não é um buraco, menino! É uma... vagina!!"
E benzeu-se em seguida.
Já se falava até em casamento por ali, no que o Pênis encarregou-se logo de descartar a hipótese, deixando bem claro sua objeção ao matrimônio ou a quaisquer outras tradições, valores ou credos. Todos no circo acataram e não se falou mais disso, com exceção, é claro, de Constantino que por achar o Pênis arrogante desde o início, argumentou:
"Em partes, até concordo com o amigo acerca do casamento, pois que também considero uma instituição falida, mas quanto ás outras tradições, já não concordo muito.
O Pênis deixou de lado o livro que lia e voltou-se endurecido para Constantino.
"Deus por exemplo - Prosseguiu Constantino - o amigo não tem religião? não acredita em Deus?"
"Cons-tan-ti-no!!" Ralhou a Vagina. O Pênis parecia escolher as palavras. E elas vieram bailando:
"Deus faliu, meu nobre, portanto, não acredito nele."
"Diz isso porque é um Pênis e não tem alma. Além de tudo, é Marxista como a Vagina e outros orifícios."
"CONS-TAN-TI-NO!!" Tornou a Vagina, sentindo-se ofendida dessa vez.
"Não sou um ser moral, meu senhor, sou um Pênis. Tenho minhas convicções."
Irritou-se um pouco. Quando isso acontecia, seus testiculos enrijeciam e inflavam causando um certo desconforto na glândula mamária de Joanna Faqquir, embora ela já estivesse acostumada áquelas dilatações escrotais
"E o que é um ser moral?"
O Pênis pareceu pensar um pouco.
"É não se sacrificar aos costumes."
"Mas isso é Niestche!"
"Seja quem for, tinha lá também suas convicções."
E deu por encerrado o colóquio, voltando as desventuras de Gregor Sansa. Constantino ainda quis argumentar, mas ele não lhe dera muito ouvidos. É certo que não havia ali outra argumentação a se contrapor a do Pênis e todos reconheciam nele o porta-voz de uma verdade sólida, muito embora ele também não acreditasse na verdade. Começava a achar que nunca deveria ter sido revelado; saído debaixo das vestes de Joanna Faqquir. Vivera o mesmo inferno dos questionamentos humanos quando residia nas costelas de uma turista espanhola em férias no Cairo. Os homens, de modo geral, o aborreciam muito. Preferia sem dúvida a docilidade e o silencio indagador das mulheres. Não que se tratasse de submissão ou passividade feminina, não. Tratava-se de coerência humana do espírito e da razão. E só as mulheres possuíam isso.
No entanto, não foram as interpelações impertinentes de Constantino aliada ás indagações pueris do mesmo que levaram o Pênis a um recolhimento profundo no seio de Joanna Faqquir. Haviam outras razões que só ele e a Vagina sem dúvida sabiam. E o motivo daquela mudança brusca viria á tona em uma manhã primaveril de maio.
CIRCO GUERNICA APRESENTA:
O HOMEM COM A ABERTURA NA TESTA
As apresentações não só empolgavam a multidão como passaram a render bons lucros ao seu Boaventura e a sua companhia. Apesar da fama e de um considerável salário que recebiam, o casal sentia-se muito triste e abatido e só eles sabiam o motivo. O mágico Castilho também, e por essa razão tentava animá-los com suas mágicas engraçadas e com sua irreverencia. Havia também as gêmeas pitonisas que, ao modo delas, procuravam ajudar também, adivinhando-lhes um destino de flores. Mas não adiantava muito não. Decorreram-se dias, meses com o Guernica viajando pelos lugarejos mais longínquos e exóticos daquela região tropical.
Um dia, porém, o circo recebeu a visita tímida e misteriosa de uma jovem de magreza e exotismo notáveis. Chamava-se Joanna e se dizia uma Faquir. Posto a par de suas habilidades na cama de pregos, seu Boaventura a contratou, embora achasse que não havia mais tanto interesse por artistas da fome. Tempos atrás - coisas de décadas - sim, compensava o esforço de promover tais exibições, hoje era quase impossível. Os tempos eram outros. Os circos também. Não obstante, seu Boaventura não concebia a ideia de ver tantos artistas e gentes comuns morrerem á míngua por falta de emprego. Cumpre lembrar que seu Boaventura era de um coração do tamanho da lona que os cobria, e todos naquela companhia o tinham como um pai.
O Guernica, portanto, acolhia a todos, até mesmo as adivinhas também tão esquecidas pelos circos modernos.
Joanna Faqquir, como gostava de ser chamada, escondia um segredo. Temia que ele viesse atrapalhar seu progresso no circo. Também compartilhava a mesma ideia acerca da modernização dos circos. Eles haviam de fato, perdido a ternura. Decerto, achariam uma aberração o que ela trazia no peito. Ninguém entenderia Sildomar e ela não o exporia a uma situação vexatória, não ele que a ajudou muito nos momentos mais dificeis de sua vida. Refletia ela em noites penosamente em claro. Seguiu com seu segredo, muito embora precisasse confira-lhe a alguém.
Quando soube que a atração principal do circo era um homem com uma vagina na testa, cogitou tratar-se de mais um desses ilusionistas baratos que se aproveitavam da boa fé do público, e portanto, não deu muita importancia. Foi só através do mágico Castilho que ela convenceu-se de que não se tratava de truque algum, que a vagina era real e que tinha uma alma circence. Revelou seu segredo apresentando Siuldomar ao mágico:
"Prazer, cavalheiro." Disse o Pênis com polidez, pois que também falava.
"Sildomar é mais que um amigo. Tem me ajudado a preencher o vazio dos meus ossos."
"Bondade dela. Não faço nada além de minha obrigação."
Diante daquilo, oc coração do mágico fraternizou-se. Pensou em Constantino e na amiga Vagina. Levou as novas pessoalmemente. Constantino quando viu Joanna, encantou-se. Mjuito mais Cíntia por Siuldmar e viceversa. O dia transcorreu com os quatro a conversarem por horas a fio até a noite vir abraça-los:
"Há quanto tempo tem ele no seio?" Perguntou Constantino.
"Há um ano e meio. E você com ela na testa?"
"Vai fazer um ano."
"São adoráveis, não são?" Constantino abriu um sorriso.
"Nen tanto. No começo foi difícil. É muito geniosa esta aqui. Fez-me perder o emprego, por isso vim parar no circo."
"Ao contrário de Sildomar. Sempre muito gentil e compreensivo desde o início. Aprendo muito com ele. Até xadrez ensinou-me a jogar. Tem uma paciência do tamanho do mundo."
"Mas por que o seio esquerdo?" Quis saber Constantino.
"É que ele é... maxista."
"Marxista, você quer dizer."
"É, alguma coisa assim."
Enquanto isso, o Pênis apontava para o firmamento explicando as estrelas. Tinha amor pela física tanto quanto pelas palavras. Uma vez perguntado sobre o amor, por uma das irmãs pitonisas, abriu mão da filosofia deixando a Vagina enrubescida e de lábios abertos.
"O verdadeiro amor não está na superficialidade do coração, e sim nas ações do homem, sejam elas boas ou más."
Constantino ouvindo aquilo, intrigou-se:
"Por acaso o amigo quer nos dizer que um crime justifica uma ação amorosa."
"O bom crime é louvável, sim, desde que sirva ao bem geral da humanidade." Respondeu o Pênis.
"Sildomar é um poeta." Acudiu Joanna Faqquir, com voz maternal.
"Tá me parecendo Dostoievsky. " Ruminou Constantino, coçando o queixo."
"Certamente que o li, meu nobre, e não nego que Raskolnikov tem me ajudado muito em meu tratado."
"Sildomar está escrevdndo um romance, não é querido?" Tornou Joanna.
"Um tratado, querida. Um tratado sobre a reivenção do amor." Corrigiu ele. E colocando-se mais ereto, sem envergar-se um centimetrozinho que fosse, estendeu-se um pouco mais com suas teorias, sem tornar-se enfadonho. Tinha sem dúvida o dom da oratória e a ousadia das ideias. Não tardou para a Vagina derramar-se de encantos e amores por ele e ele por ela.O mesmo sentimento ocorria com Joanna Faqquir e Constantino. Sempre ao término das apresentações, eram vistos caminhando esquecidos do mundo, pelas pracinhas, feiras ou mesmo pelos arredores do circo, sob o luar prateado. Chamavam sempre atenção por onde passavam:
"Olha mãe! O homem com o buraco na testa!" Gritou certa vez uma criança.
"Não é um buraco, menino! É uma... vagina!!"
E benzeu-se em seguida.
Já se falava até em casamento por ali, no que o Pênis encarregou-se logo de descartar a hipótese, deixando bem claro sua objeção ao matrimônio ou a quaisquer outras tradições, valores ou credos. Todos no circo acataram e não se falou mais disso, com exceção, é claro, de Constantino que por achar o Pênis arrogante desde o início, argumentou:
"Em partes, até concordo com o amigo acerca do casamento, pois que também considero uma instituição falida, mas quanto ás outras tradições, já não concordo muito.
O Pênis deixou de lado o livro que lia e voltou-se endurecido para Constantino.
"Deus por exemplo - Prosseguiu Constantino - o amigo não tem religião? não acredita em Deus?"
"Cons-tan-ti-no!!" Ralhou a Vagina. O Pênis parecia escolher as palavras. E elas vieram bailando:
"Deus faliu, meu nobre, portanto, não acredito nele."
"Diz isso porque é um Pênis e não tem alma. Além de tudo, é Marxista como a Vagina e outros orifícios."
"CONS-TAN-TI-NO!!" Tornou a Vagina, sentindo-se ofendida dessa vez.
"Não sou um ser moral, meu senhor, sou um Pênis. Tenho minhas convicções."
Irritou-se um pouco. Quando isso acontecia, seus testiculos enrijeciam e inflavam causando um certo desconforto na glândula mamária de Joanna Faqquir, embora ela já estivesse acostumada áquelas dilatações escrotais
"E o que é um ser moral?"
O Pênis pareceu pensar um pouco.
"É não se sacrificar aos costumes."
"Mas isso é Niestche!"
"Seja quem for, tinha lá também suas convicções."
E deu por encerrado o colóquio, voltando as desventuras de Gregor Sansa. Constantino ainda quis argumentar, mas ele não lhe dera muito ouvidos. É certo que não havia ali outra argumentação a se contrapor a do Pênis e todos reconheciam nele o porta-voz de uma verdade sólida, muito embora ele também não acreditasse na verdade. Começava a achar que nunca deveria ter sido revelado; saído debaixo das vestes de Joanna Faqquir. Vivera o mesmo inferno dos questionamentos humanos quando residia nas costelas de uma turista espanhola em férias no Cairo. Os homens, de modo geral, o aborreciam muito. Preferia sem dúvida a docilidade e o silencio indagador das mulheres. Não que se tratasse de submissão ou passividade feminina, não. Tratava-se de coerência humana do espírito e da razão. E só as mulheres possuíam isso.
No entanto, não foram as interpelações impertinentes de Constantino aliada ás indagações pueris do mesmo que levaram o Pênis a um recolhimento profundo no seio de Joanna Faqquir. Haviam outras razões que só ele e a Vagina sem dúvida sabiam. E o motivo daquela mudança brusca viria á tona em uma manhã primaveril de maio.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
IX - O CIRCO GUERNICA E O DESTINO DE CONSTANTINO E A VAGINA
DIAS DEPOIS, O CASAL FOI APRESENTADO á figura excentrica de seu Boaventura, o dono do circo. Um sujeito gordo, bonachão, na casa de seus sessenta e poucos anos; calvo e com bigodes de causar inveja a Salvador Dali. Ele ouviu emocionado o relato da Vagina e perguntou:
"E o que fazia no circo, minha pequena?"
"Engolia espadas, seu Boaventura."
"Engolidora de espadas...interessante."
"E das melhores, lhe asseguro. Trabalhamos juntos." Reforçou o mágico Castilho que estava presente na ocasião.
"Ainda podes fazer isso?" - Perguntou o dono do circo alisando os bigodes de Dali.
"Mas é claro! É o que mais gosto de fazer, além de contar piadas."
Sem mais perguntas, seu Boaventura ofereceu-lhes de pronto o emprego. Fez questão de mostrar-lhes pessoalmente o lugar onde o casal passaria a morar. Mais tarde, como era um costume seu, apresentou seus avós aos novos funcionários. Os avós, cujos corpos, seu Boaventura os mantinha mumificados em um trailer particular.
"Eram meus avós. Tenho muito orgulho deles." Explicou. Cíntia torceu os lábios achando aquilo muito nojento.
"Seu Boaventura é neto de espanhóis. Os avós dele lutaram na Guerra Civil Espanhola contra o general Franco." - Frisou Castilho.
"É verdade, senhores. Meu avô morreu lutando ao lado da milícia contra Franco, e minha vó, durante o bombardeio á Guernica.
"Daí a razào do circo chamar-se Guernica." Complementou envaidecido, o mágico.
Seu Boaventura mostrou ainda velhas fotografias de sua infancia e falou muito do passado e do presente. Depois, deixou-os descansar, pois que no dia seguinte, haveria espetáculo.
"Guernica" (Pablo Picasso)
"E o que fazia no circo, minha pequena?"
"Engolia espadas, seu Boaventura."
"Engolidora de espadas...interessante."
"E das melhores, lhe asseguro. Trabalhamos juntos." Reforçou o mágico Castilho que estava presente na ocasião.
"Ainda podes fazer isso?" - Perguntou o dono do circo alisando os bigodes de Dali.
"Mas é claro! É o que mais gosto de fazer, além de contar piadas."
Sem mais perguntas, seu Boaventura ofereceu-lhes de pronto o emprego. Fez questão de mostrar-lhes pessoalmente o lugar onde o casal passaria a morar. Mais tarde, como era um costume seu, apresentou seus avós aos novos funcionários. Os avós, cujos corpos, seu Boaventura os mantinha mumificados em um trailer particular.
"Eram meus avós. Tenho muito orgulho deles." Explicou. Cíntia torceu os lábios achando aquilo muito nojento.
"Seu Boaventura é neto de espanhóis. Os avós dele lutaram na Guerra Civil Espanhola contra o general Franco." - Frisou Castilho.
"É verdade, senhores. Meu avô morreu lutando ao lado da milícia contra Franco, e minha vó, durante o bombardeio á Guernica.
"Daí a razào do circo chamar-se Guernica." Complementou envaidecido, o mágico.
Seu Boaventura mostrou ainda velhas fotografias de sua infancia e falou muito do passado e do presente. Depois, deixou-os descansar, pois que no dia seguinte, haveria espetáculo.
"Guernica" (Pablo Picasso)
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
VIII - CASTILHO O MÁGICO
A DENSA NÉVOA ENCOBRINDO AQUELA PARTE de cidade nada mais era que uma tola cerração vinda das serrarias e das míseras e velhas fábricas de juta e castanha que margeavam a provinciazinha, frustrando, portanto, os moradores que ingenuamente acreditavam tratar-se de um novo fenoimeno climático. Envolto nesse triste nevoeiro, achava-se ele a procura de um bar para esconder-se e embebedar-se com a Vagina, ela que acabara por tornar-se cúmplice de todo seu amargor e alheamento. Avistaram um inferninho nas imediações do porto e caminharam para lá. Entraram. Dessa vez não foram os poucos os que se impressionaram coim a aparição deles, mas o lugar inteiro que emudeceu. Não deram muita importancia para aqueles olhares bestiais e se dirigiram logo ao balcão. Não tardou e tudo voltou como era. Ele pediu uma bebida e ela outra. Há dias que ela vinha acompanhando Constantino em seus porres e lamúrias e era sempre ela que o conduzia com zelo de volta para casa. Deprimi-a, porém, bem mais do que ele, o fato de cedo ou mais tarde não terem mais para onde voltar, tendo em vista a iminência de despejo decretada pela proprietária da casa por conta do aluguel atrasado. Vale ressaltar que Constantino morava alugado no Bairro das Violetas e ainda continuava desempregado.
Bom, as horas passavam com ele ali remoendo seus pecados; murmurando entre os dentes frases confusas e intercaladas. Entornava os copos e olhava de quando em quando para a rudeza e selvageria dos bebuns que se acotovelavam pelo bar, proferindo palavrões e bebendo sofregamente. Pareciam personagens saídos das páginas de Germinal. A analogia o fez sorrir e ele tomou uma golada.
"Devagar, Constantino." Prevenia a Vagina. Ele nada dizia. Havia já alguns dias, após o insucesso acasalar, que ele trocava não mais que breves palavras com ela, sem queixas, ofensas ou dissabores. Não demorou para um estivador de rosto inchado e vermelho aproximar-se deles oferecendo-se para pagar uma cerveja, no que Constantino rejeitou-o com um leve e cansado aceno de mãos.
"Só mais essa e vamnos embora, Constantino!" Ralhou a Vagina.
As poucas mulheres que haviam no bar insinuavam-se para Constantino, afinal ele não era de todo desinteressante assim. Tinha lá seus paramentos masculinos, que por distração minha quase acabei por omitir ao leitor. Constantino era um sujeito de ombros largos, rosto assimétrico - bem talhado - queixo proeminente, olhos miúdos e negros - bem negros - dando vazão a uma tristeza infantil de criança desamparada. Em face disso, talvez, uma gorda engraçou-se dele mas foi repelida pela Vagina que se mostrou inóspita quanto áquela estética. A gorda saiu borrifando, muito zangada.
"Velha, gorda e não tinha cintura. Me poupe, Constantino."
Observou a Vagina. Ele não ligou muito. Já não ligava para as muitas provocações da Vagina. Preparavam-se para deixar o lugar quando foram ingterpelados por um sujeito estranho, vindo dos fundos do bar:
"Senhores!!"
Corbia-lhe a cabeça uma cartola escura. Um paletó cinza, de malha grosseira, visivelmente amarrotado, sobrava-lhe no corpo pequeno e magro. Os sapatos eram velhos e demasiadamente gastos. Tinha o rosto pintado de branco, lembrando Carlitos. Fez uma breve reverencia ao casal e em seguida - num gesto brusco e rápido - retirou da orelha de Constantino, uma rosa que ofertou á Vagina, dizendo:
"Uma rosa para uma outra rosa." Ela, evidente, não conteve o riso, e por consideração a ele, o sujeito fez outra mágica retirando de dentro da cartola, um coelho azul. Os bebuns ali próximos se torciam em risos e aplausos como autênticas crianças.
"Azul?" Espantou-se a Vagina.
"Sim, azul. Acaso não seria essa ainda sua cor preferida?"
Ela riu de novo.
"Ah, Castilho, só você mesmo pra me fazer sorrir novamente."
O reconheceu pel íris deslocada e por sua irreverencia.
"Um mágico... só me faltava essa..." Resmungou, Constantino.
"E ele?" Quis saber o mágico.
"Um amigo."
O mágico que se chamava Castilho, sugeriu um outro bar, próximo das docas. O casal acatou. Andaram até lá sob a névoa que agora se dissipava aos pouquinhos expondo uma lua redonda e pávula. O lugar era bem aconchegante. Sentia-se o cheiro agradável do rio em conluio com a brisa mansa e o apito cansado e majestoso de um navio atracando.
"Quanto tempo, querido!"
"E tu, sua louca? O que fazes da vida?"
"As voltas com este aqui."
Apresentou Constantino a Castilho. Constantino cumprimentou-o com os olhos enfastiados, sem muito brilho.
"O que ele tem?" Perguntou o mágico.
"E que perdeu o emprego e não consegue arranjar outro. Somado a isso, há uma ordem de despejo e ele não consegue fazer amor comigo por causa de sua coluna estragada."
"Coitado..."
Constantino deu um gole considerado em sua cerveja e arredou sua cadeira para mais junto do mágico. Encarou-o nos olhos:
"Escuta, amigo! Não que me oponha mais á presença dela em minha testa, mesmo porque, de uns dias para cá, acabamos quase nos entendendo, não fosse a porcaria da minha coluna, mas acho que chegou a hora de nos separarmos, de modo que peço-lhe obsequiamente que a remova daqui, haja vista tratar-se o amigo de um mágico habilidoso, como bem demonstrou."
Castilho sorriu olhando desconcertante para a amiga Vagina.
"O que me diz, han?"
"É que não posso, seu Constantino."
"Mas por que não? não és um mágico?"
"Sou, mas é que nesse caso, elas tem vontade própria. De nada valeriam meus atributos de mágico."
"Estou certo de que é uma vontade dela também, não é minha querida"
"Infelizmente não depende de mim, amore."
"De quem então, raios?"
"Dele."
"Dele quem?"
"De quem nos rege."
Constantino piscou muitas vezes. Era sem dúvida um cacoete que irritava deveras a Vagina. Mas dessa vez ela não disse nada.
"Agora quanto ao fato de estarem desempregados, posso dar um jeito."
Tranquilizou o mágico.
"Como assim, Castilho?" Cíntia animou-se. Se tivesse mãozinhas, bateria palmas animadinha.
"O Guernica. circo onde trabalho, está de passagem na cidade. Posso falar com seu Boaventura, quem sabe ele não consegue um trabalho para vocês."
"Jura? O que me diz, querido?" Dirigiu-se a Constantino.
"Não é hora para brincadeiras." Respondeu ele.
"Vais gostar! Viajaremos muito. Conheceremos outros lugares..." Falava ela bastante excitada. "A não ser que prefiras morrer de frio e fome."
Era evidente que Constantino não estava em condições de determinar ou impor nada, nada além do que, havia expirado o prazo para deixarem a casa, portanto, não havia outra escolha...
"o palhaço" (Pablo Picasso)
Bom, as horas passavam com ele ali remoendo seus pecados; murmurando entre os dentes frases confusas e intercaladas. Entornava os copos e olhava de quando em quando para a rudeza e selvageria dos bebuns que se acotovelavam pelo bar, proferindo palavrões e bebendo sofregamente. Pareciam personagens saídos das páginas de Germinal. A analogia o fez sorrir e ele tomou uma golada.
"Devagar, Constantino." Prevenia a Vagina. Ele nada dizia. Havia já alguns dias, após o insucesso acasalar, que ele trocava não mais que breves palavras com ela, sem queixas, ofensas ou dissabores. Não demorou para um estivador de rosto inchado e vermelho aproximar-se deles oferecendo-se para pagar uma cerveja, no que Constantino rejeitou-o com um leve e cansado aceno de mãos.
"Só mais essa e vamnos embora, Constantino!" Ralhou a Vagina.
As poucas mulheres que haviam no bar insinuavam-se para Constantino, afinal ele não era de todo desinteressante assim. Tinha lá seus paramentos masculinos, que por distração minha quase acabei por omitir ao leitor. Constantino era um sujeito de ombros largos, rosto assimétrico - bem talhado - queixo proeminente, olhos miúdos e negros - bem negros - dando vazão a uma tristeza infantil de criança desamparada. Em face disso, talvez, uma gorda engraçou-se dele mas foi repelida pela Vagina que se mostrou inóspita quanto áquela estética. A gorda saiu borrifando, muito zangada.
"Velha, gorda e não tinha cintura. Me poupe, Constantino."
Observou a Vagina. Ele não ligou muito. Já não ligava para as muitas provocações da Vagina. Preparavam-se para deixar o lugar quando foram ingterpelados por um sujeito estranho, vindo dos fundos do bar:
"Senhores!!"
Corbia-lhe a cabeça uma cartola escura. Um paletó cinza, de malha grosseira, visivelmente amarrotado, sobrava-lhe no corpo pequeno e magro. Os sapatos eram velhos e demasiadamente gastos. Tinha o rosto pintado de branco, lembrando Carlitos. Fez uma breve reverencia ao casal e em seguida - num gesto brusco e rápido - retirou da orelha de Constantino, uma rosa que ofertou á Vagina, dizendo:
"Uma rosa para uma outra rosa." Ela, evidente, não conteve o riso, e por consideração a ele, o sujeito fez outra mágica retirando de dentro da cartola, um coelho azul. Os bebuns ali próximos se torciam em risos e aplausos como autênticas crianças.
"Azul?" Espantou-se a Vagina.
"Sim, azul. Acaso não seria essa ainda sua cor preferida?"
Ela riu de novo.
"Ah, Castilho, só você mesmo pra me fazer sorrir novamente."
O reconheceu pel íris deslocada e por sua irreverencia.
"Um mágico... só me faltava essa..." Resmungou, Constantino.
"E ele?" Quis saber o mágico.
"Um amigo."
O mágico que se chamava Castilho, sugeriu um outro bar, próximo das docas. O casal acatou. Andaram até lá sob a névoa que agora se dissipava aos pouquinhos expondo uma lua redonda e pávula. O lugar era bem aconchegante. Sentia-se o cheiro agradável do rio em conluio com a brisa mansa e o apito cansado e majestoso de um navio atracando.
"Quanto tempo, querido!"
"E tu, sua louca? O que fazes da vida?"
"As voltas com este aqui."
Apresentou Constantino a Castilho. Constantino cumprimentou-o com os olhos enfastiados, sem muito brilho.
"O que ele tem?" Perguntou o mágico.
"E que perdeu o emprego e não consegue arranjar outro. Somado a isso, há uma ordem de despejo e ele não consegue fazer amor comigo por causa de sua coluna estragada."
"Coitado..."
Constantino deu um gole considerado em sua cerveja e arredou sua cadeira para mais junto do mágico. Encarou-o nos olhos:
"Escuta, amigo! Não que me oponha mais á presença dela em minha testa, mesmo porque, de uns dias para cá, acabamos quase nos entendendo, não fosse a porcaria da minha coluna, mas acho que chegou a hora de nos separarmos, de modo que peço-lhe obsequiamente que a remova daqui, haja vista tratar-se o amigo de um mágico habilidoso, como bem demonstrou."
Castilho sorriu olhando desconcertante para a amiga Vagina.
"O que me diz, han?"
"É que não posso, seu Constantino."
"Mas por que não? não és um mágico?"
"Sou, mas é que nesse caso, elas tem vontade própria. De nada valeriam meus atributos de mágico."
"Estou certo de que é uma vontade dela também, não é minha querida"
"Infelizmente não depende de mim, amore."
"De quem então, raios?"
"Dele."
"Dele quem?"
"De quem nos rege."
Constantino piscou muitas vezes. Era sem dúvida um cacoete que irritava deveras a Vagina. Mas dessa vez ela não disse nada.
"Agora quanto ao fato de estarem desempregados, posso dar um jeito."
Tranquilizou o mágico.
"Como assim, Castilho?" Cíntia animou-se. Se tivesse mãozinhas, bateria palmas animadinha.
"O Guernica. circo onde trabalho, está de passagem na cidade. Posso falar com seu Boaventura, quem sabe ele não consegue um trabalho para vocês."
"Jura? O que me diz, querido?" Dirigiu-se a Constantino.
"Não é hora para brincadeiras." Respondeu ele.
"Vais gostar! Viajaremos muito. Conheceremos outros lugares..." Falava ela bastante excitada. "A não ser que prefiras morrer de frio e fome."
Era evidente que Constantino não estava em condições de determinar ou impor nada, nada além do que, havia expirado o prazo para deixarem a casa, portanto, não havia outra escolha...
"o palhaço" (Pablo Picasso)
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
PARTE VII - CONSTANTINO E A VAGINA TENTAM FAZER AMOR OU É COMO O SOL QUE NUNCA FECUNDA A LUA
CONSTANTINO EMPENHOU-SE O BASTANTE em conseguir outro emprego, mas os esforços pareciam-lhe em vão, ainda mais quando Cíntia punha-se em querer ajudá-lo nas entrevistas, aí era um Deus nos acuda. Tal situação acabou por mergulhá-lo em desespero e depressão. Ela, por sua vez, percebendo da gravidade do problema, tentava a todo custo reanimá-lo, sugerindo que ele empreendesse a sua tão sonhada viagem ao Caribe ou a qualquer lugar que fosse:
"Ainda por cima, zombas da minha da dor."
"Então chega de se lamuriar, homem. Levanta essa cabeça!"
Constantino ruminou diversos planos de ação. Até que uma ideia lampejou-lhe a mente. Para vingar-se dela, ele passou a boicotar-lhe a presença, ignorando sumariamente suas provocações. E para acirrar mais ainda o confronto, fingiu voltar ao tal livro fazendo voto de silencio. Fingimento sim, pois que há muito - antes mesmo da aparição dela - sabia-se incapaz de prosseguir escrevendo; uma linha sequer, para dizer a verdade. Mas tudo era válido para exorcizar o demonio em sua testa. E pareceu surtir efeito tal jogo, pois que Cíntia irritava-se mais e mais. O que se passou a ouvir pela casa nos dias que se seguiram eram apenas o baque surdo das horas e o toque de seus dedos nas teclas de um computador sem alma. Quando não, Strauss tocando baixinho. Tinha preferencia por Strauss mais que qualquer outro músico.
"Té parece... como podes gostar de música clássica e frequentar lugares chulos? Não te entendo mesmo, Constantino. És a contradição deste século."
Ele não lhe dava ouvidos.
"O que tanto escreve, afinal?" Teimava ela. "Não compensa tanto esforço. Não ouviu o Rosa falar?"
Ou então para deixá-lo aborrecido, assobiava por horas um desses sambinhas miseráveis que tocam nas rádios ou cantarolava um bolero inventado. Ele, ao contrário, parecia mesmo determinado em não se deixar abater, seguindo com seu estratagema.
"Não vamos mais sair?" Ficaremos agora aqui enclausurados com você bancando o escritor? paciência..."
O plano, porém, mostrou-se eficaz. No quarto ou quinto dia, ela fechara os lábios.
***
Daquela vez quem acordou animado e assobiando modinhas, foi Constantino. E ele tinha lá suas razões, é óbvio: havia se passado dois dias que Cíntia não lhe dirigia a palavra. Curioso e como era de costume, ele foi ao banheiro inspecionar a testa. Aproximou-se lentamente do espelho, os olhos fechados na esperança de que ao abri-los, teria a grata surpresa de não vê-la mais ali, residindo em seu corpo. De que tudo não passara de uma alucinação ou pesadelo. Mas para sua infelicidade ela ainda permanecia teimosamente no mesmo lugar. No entanto, notara curiosamente que a penugem loira contornando os grossos lábios, tornara-se mais volumosa. Era duro aceitar, mais a cada dia a Vagina ficava mais atraente. Por alguma razão, ele se sentiu tentado em acariciar-lhe ternamente os tufos loiros e o clitóris encrespadinho, no que ela, ao leve toque, contraia-se em sinal de protesto ou repulsa. Constantino tratou logo de afastar a ideia absurda que lhe perpassou a mente. Além do mais, precisava continuar pondo em prática seu plano de ação. Cedo ou mais tarde, ela desistiria de tudo e tudo então voltaria ao normal. Assim o suponha.
De bom humor e loquaz, Constantino resolveu naquele dia pôr fim em seu claustro. Voltou a distrair-se revendo os amigos e conhecendo gente nova. Se fazia parte de algum jogo, ela também sabia jogar tão bem quanto ele. Sendo assim, a Vagina e ele, cada um ao seu modo e, ignorando a presença um do outro, arregimentavam amizades diversas por onde passavam, ela, é claro, bem mais do que ele, pois que possuía, além de uma natureza extrovertida, carisma e graciosidade. Os mais atirados lançavam-lhe propostas indecorosas ou até mesmo sérias demais, que ela, por consideração ao seu hospedeiro, tratava logo de repelir as investidas:
"Bobos e ocos como bulbos sem luz." Cacofoniava.
Constantino não se considerava até então um sujeito ciumento, mas o comportamento da Vagina mexia de certo modo com seus nervos, despertando nele, emoções absurdas.
Ao passo de alguns dias, acabou por render-se ao ver ruir a tênue esperança de ver o seu plano atingir êxito. Aconteceu, no entanto, que certo dia, ao retornarem de uma dessas noitadas quase sempre vazias, Cíntia dirigiu-se a ele de forma estranhamente afetuosa:
"Por que não tentamos, quem sabe..."
Apanhado de surpresa, Constantino não atinou de imediato com aquela insinuação. Ela mesma se encarregou de explicar-lhe:
"No fundo é o que todos desejam. Parecem viver todos em função disso. Mas já não me importo tanto."
A voz soava lânguida, doce.
"Que ideia, essa sua."
"Em troca, peço-lhe somenta uma trégua. A solidão mata."
Constantino piscou muitas vezes. Era como ele demonstrava sua forma de fazer uso da razão e ela odiava o cacoete."
"Estas bêbada, é isso."
"Estou sendo apenas prudente."
Refutou bastante ao pedido dela, levando em conta seu espírito ardil, leviano e vingativo, sobretudo o que ela fizera com o pobre do Rosa e tudo o mais que ela ainda era capaz de fazer. Por outro lado, considerou a proposta interessante, posto que não tinha muita escolha ou o que perder. Ademais, bem lá no fundo do seu intimo, ardia-lhe um curioso e pretenso desejo de possuí-la. Decerto quer não seria uma tarefa das mais fáceis, o que lhe valeriam esforços imensos, diria até sobrehumanos para um homem com um pouco mais de 40 e com sérios problemas lombares. Ainda sim, impulsionado pela aventura insólita a que se arriscaria, se pôs no chão da sala em posição de lótus, meditativo, olhos semicerrados:
"Mas que diabos é isso, Constantino?" Estranhou ela.
"É Ioga. Deu certo com minha miopia e com minha hernia de disco."
"Besteira!"
Ela sugeriu um bom vinho e eles encaminharam-se á mercearia mais próxima. Fazia uma noite fria. Uma noite com hálito de amantes.
Na volta, Constantino portou-se como um lorde, enchendo suas taças de vinho e selecionando a capricho, cd's antigos e românticos. Entre um copo e outro, discorreram sobre suas vidas, planos, projetos; riram e se embebedaram com cautela.
"E se eu engravidar?" Indagou ele. Ela deu uma gargalhada. Pareciam dois velhos amantes que se entendiam. Pelas tantas, ela sentiu que era a hora e ele também. Seu pênis respondeu ao leve impulso da vontade e pôs-se ereto. Não era grande, tão pouco pequeno. Dir-se-ia um membro médio, viril e grosso. Foi inclinando a testa em sua direção. Tocava qualquer coisa dos anos setenta. Havia de conseguir, sim. Lembrou-se que na puberdade abocanhara o próprio pênis ganhando uma aposta que fizera com os colegas que achavam que ele não conseguiria. Mas ele conseguiu e tornou-se perito naquilo. Logo o alcunharam de "O menino elástico". Ganhou fama e respeito no bairro todo. Ahh, mas isso já foi há muito tempo atrás. Hoje a cronologia era outra. Contava 45, levava uma vida sedentaria e ainda tinha o diabo da coluna que o infernizava.
"Um pouco mais, querido... um pouquinho mais..."
Encorajava a Vagina. Ele sentiu dores nas costas e recuou fumegante. Tentara uma segunda e terceira vez. O esforço era por demais e ele suava á cântaros. Na quarta tentativa, chegara a roçar de leve os lábios dela, mas sentiu dores novamente e recuou. Desistiu e foi até a janela tomar ar.
"Tens razão! Sou um imprestável."
Ela não disse nada. Fez silencio na casa. Lá fora, a noite, triste, mugia. Houve outras tentativas, é claro. Todas com insucesso. Por fim, desistiram.
Era como o sol que nunca fecundaria a lua...
"cão latindo pra lua" (Miró)
"Ainda por cima, zombas da minha da dor."
"Então chega de se lamuriar, homem. Levanta essa cabeça!"
Constantino ruminou diversos planos de ação. Até que uma ideia lampejou-lhe a mente. Para vingar-se dela, ele passou a boicotar-lhe a presença, ignorando sumariamente suas provocações. E para acirrar mais ainda o confronto, fingiu voltar ao tal livro fazendo voto de silencio. Fingimento sim, pois que há muito - antes mesmo da aparição dela - sabia-se incapaz de prosseguir escrevendo; uma linha sequer, para dizer a verdade. Mas tudo era válido para exorcizar o demonio em sua testa. E pareceu surtir efeito tal jogo, pois que Cíntia irritava-se mais e mais. O que se passou a ouvir pela casa nos dias que se seguiram eram apenas o baque surdo das horas e o toque de seus dedos nas teclas de um computador sem alma. Quando não, Strauss tocando baixinho. Tinha preferencia por Strauss mais que qualquer outro músico.
"Té parece... como podes gostar de música clássica e frequentar lugares chulos? Não te entendo mesmo, Constantino. És a contradição deste século."
Ele não lhe dava ouvidos.
"O que tanto escreve, afinal?" Teimava ela. "Não compensa tanto esforço. Não ouviu o Rosa falar?"
Ou então para deixá-lo aborrecido, assobiava por horas um desses sambinhas miseráveis que tocam nas rádios ou cantarolava um bolero inventado. Ele, ao contrário, parecia mesmo determinado em não se deixar abater, seguindo com seu estratagema.
"Não vamos mais sair?" Ficaremos agora aqui enclausurados com você bancando o escritor? paciência..."
O plano, porém, mostrou-se eficaz. No quarto ou quinto dia, ela fechara os lábios.
***
Daquela vez quem acordou animado e assobiando modinhas, foi Constantino. E ele tinha lá suas razões, é óbvio: havia se passado dois dias que Cíntia não lhe dirigia a palavra. Curioso e como era de costume, ele foi ao banheiro inspecionar a testa. Aproximou-se lentamente do espelho, os olhos fechados na esperança de que ao abri-los, teria a grata surpresa de não vê-la mais ali, residindo em seu corpo. De que tudo não passara de uma alucinação ou pesadelo. Mas para sua infelicidade ela ainda permanecia teimosamente no mesmo lugar. No entanto, notara curiosamente que a penugem loira contornando os grossos lábios, tornara-se mais volumosa. Era duro aceitar, mais a cada dia a Vagina ficava mais atraente. Por alguma razão, ele se sentiu tentado em acariciar-lhe ternamente os tufos loiros e o clitóris encrespadinho, no que ela, ao leve toque, contraia-se em sinal de protesto ou repulsa. Constantino tratou logo de afastar a ideia absurda que lhe perpassou a mente. Além do mais, precisava continuar pondo em prática seu plano de ação. Cedo ou mais tarde, ela desistiria de tudo e tudo então voltaria ao normal. Assim o suponha.
De bom humor e loquaz, Constantino resolveu naquele dia pôr fim em seu claustro. Voltou a distrair-se revendo os amigos e conhecendo gente nova. Se fazia parte de algum jogo, ela também sabia jogar tão bem quanto ele. Sendo assim, a Vagina e ele, cada um ao seu modo e, ignorando a presença um do outro, arregimentavam amizades diversas por onde passavam, ela, é claro, bem mais do que ele, pois que possuía, além de uma natureza extrovertida, carisma e graciosidade. Os mais atirados lançavam-lhe propostas indecorosas ou até mesmo sérias demais, que ela, por consideração ao seu hospedeiro, tratava logo de repelir as investidas:
"Bobos e ocos como bulbos sem luz." Cacofoniava.
Constantino não se considerava até então um sujeito ciumento, mas o comportamento da Vagina mexia de certo modo com seus nervos, despertando nele, emoções absurdas.
Ao passo de alguns dias, acabou por render-se ao ver ruir a tênue esperança de ver o seu plano atingir êxito. Aconteceu, no entanto, que certo dia, ao retornarem de uma dessas noitadas quase sempre vazias, Cíntia dirigiu-se a ele de forma estranhamente afetuosa:
"Por que não tentamos, quem sabe..."
Apanhado de surpresa, Constantino não atinou de imediato com aquela insinuação. Ela mesma se encarregou de explicar-lhe:
"No fundo é o que todos desejam. Parecem viver todos em função disso. Mas já não me importo tanto."
A voz soava lânguida, doce.
"Que ideia, essa sua."
"Em troca, peço-lhe somenta uma trégua. A solidão mata."
Constantino piscou muitas vezes. Era como ele demonstrava sua forma de fazer uso da razão e ela odiava o cacoete."
"Estas bêbada, é isso."
"Estou sendo apenas prudente."
Refutou bastante ao pedido dela, levando em conta seu espírito ardil, leviano e vingativo, sobretudo o que ela fizera com o pobre do Rosa e tudo o mais que ela ainda era capaz de fazer. Por outro lado, considerou a proposta interessante, posto que não tinha muita escolha ou o que perder. Ademais, bem lá no fundo do seu intimo, ardia-lhe um curioso e pretenso desejo de possuí-la. Decerto quer não seria uma tarefa das mais fáceis, o que lhe valeriam esforços imensos, diria até sobrehumanos para um homem com um pouco mais de 40 e com sérios problemas lombares. Ainda sim, impulsionado pela aventura insólita a que se arriscaria, se pôs no chão da sala em posição de lótus, meditativo, olhos semicerrados:
"Mas que diabos é isso, Constantino?" Estranhou ela.
"É Ioga. Deu certo com minha miopia e com minha hernia de disco."
"Besteira!"
Ela sugeriu um bom vinho e eles encaminharam-se á mercearia mais próxima. Fazia uma noite fria. Uma noite com hálito de amantes.
Na volta, Constantino portou-se como um lorde, enchendo suas taças de vinho e selecionando a capricho, cd's antigos e românticos. Entre um copo e outro, discorreram sobre suas vidas, planos, projetos; riram e se embebedaram com cautela.
"E se eu engravidar?" Indagou ele. Ela deu uma gargalhada. Pareciam dois velhos amantes que se entendiam. Pelas tantas, ela sentiu que era a hora e ele também. Seu pênis respondeu ao leve impulso da vontade e pôs-se ereto. Não era grande, tão pouco pequeno. Dir-se-ia um membro médio, viril e grosso. Foi inclinando a testa em sua direção. Tocava qualquer coisa dos anos setenta. Havia de conseguir, sim. Lembrou-se que na puberdade abocanhara o próprio pênis ganhando uma aposta que fizera com os colegas que achavam que ele não conseguiria. Mas ele conseguiu e tornou-se perito naquilo. Logo o alcunharam de "O menino elástico". Ganhou fama e respeito no bairro todo. Ahh, mas isso já foi há muito tempo atrás. Hoje a cronologia era outra. Contava 45, levava uma vida sedentaria e ainda tinha o diabo da coluna que o infernizava.
"Um pouco mais, querido... um pouquinho mais..."
Encorajava a Vagina. Ele sentiu dores nas costas e recuou fumegante. Tentara uma segunda e terceira vez. O esforço era por demais e ele suava á cântaros. Na quarta tentativa, chegara a roçar de leve os lábios dela, mas sentiu dores novamente e recuou. Desistiu e foi até a janela tomar ar.
"Tens razão! Sou um imprestável."
Ela não disse nada. Fez silencio na casa. Lá fora, a noite, triste, mugia. Houve outras tentativas, é claro. Todas com insucesso. Por fim, desistiram.
Era como o sol que nunca fecundaria a lua...
"cão latindo pra lua" (Miró)
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
CAPITULO VI - CONSTANTINO É DEMITIDO E SE DEPRIME
NAQUELA MANHÃ LOGO AO CHEGAR Á REPARTIÇÃO,Constantino fora chamado com certa urgencia á sala do seu chefe. Já suspeitava vagamente do que se tratava:
"Coragem, Constantino, e nada de se humilhar pra este infeliz." Advertiu a Vagina.
"Por que não fecha esses lábios?" Resmungou ele. Cruzaram o corredor e adentraram a sala. O chefe falava ao telefone e fez sinal para que eles sentassem. Constantino esperou angustiosos minutos. Havia sobre a mesa, uma carta de demissão. Ele sentiu frio e tristeza na alma. O chefe finalmente desligou e voltou sua atenção para Constantino. Os olhos do chefe eram frios. Duros e frios como de um gavião.
"Creio que o senhor já sabe do que se trata, seu Constantino."
"Não, senhor, não sei."
"Está sendo demitido."
Ficou um tempo calado. Depois perguntou:
"E qual a razão de minha demissão, seu Valdeci?"
"Razões bem óbvias: Constrangimento aos colegas e desacato patronal." Constantino piscou muitas vezes.
"Não entendi, senhor."
"Entendeu sim, seu Constantino. Mas não precisa se preocupar. Iremos indenizá-lo direitinho. Vai poder finalmente realizar seu grande sonho que é de ir aio Caribe."
"Não quero ir mais ao Caribe, seu Valdeci. Preciso do meu emprego. Preciso terminar meu livro."
"Não se humilhe pra este infeliz, Constantino!" Meteu-se a Vagina.
"Veja lá como fala, vagininha. Não se esqueça que você é a grande culpada." Berrou o chefe.
"Ela está só de passagem, seu Valdeci. Hoje mesmo será removida da minha testa, prometo. Sua estada aqui é um mero equívoco."
"Não torne as coisas mais difíceis, seu Constantino."
"São vinte anos, seu Valdeci."
"Por isso mesmo. Não precisamos mais de seus serviços. Procure entender."
Constantino tinha os olhos lacrimejantes. Era de doer até nos objetos.
"Sem mais delongas. Assine a carta e vamos dar por encerrado o assunto." Sentenciou o chefe.
"Assina lolgo esse troço e enfia no rabo desse infeliz sem alma." Ruminou a Vagina.
Constantino não via outra saída. Com as mãos trêmulas, assinou a carta. Saiu cabisbaixo da mesma forma que entrou. Horas depois - em silencio - Constantino encaixotava suas coisas. Um anão emergido de uma pilha de papéis mofentos veio solidarizar-se com ele:
"Constantino..."
"Fala, Pires."
"O que vai ser de mim e desse almoxarifado, agora que voc6e foi demitido?"
"Não sei, Pires. Nem mesmo sei de mim."
"Então, desejo-lhe muita sorte, amigo."
"Obrigado, Pires."
Na saída, Cíntia quis saber:
"Quem era este, Constantino, que eu ainda não conhecia?"
"Quem, o Pires? Grande amigo. Começamos juntos no almoxarifado. Mas que diabos, isso não lhe interessa!"
***
Parou na primeira birosca que encontrou no caminho. Não havia ninguém e era onze de uma manhã bolorenta. Pediu uma dose de cachaça a um garoto que fazia ás vezes de atendente:
"Faz de propósito, não é Constantino?" Disse a Vagina, referindo-se ao lugar.
"Se não gostas dos lugares que frequento e da vida que levo, desapareça da minha testa."
"E acha que é assim, tão simples?" Você precisa de mim tanto quanto eu preciso de você, meu caro. É o que se chama de simbiose."
"Suma da minha testa! Você desgraça a minha vida."
O moleque serviu a dose sem tirar os olhos da testa de Constantino. Este deu uma talagada e pediu outra:
"Agora vai se matar nessa birosca fedida, é?"
"A vida é minha. Faço dela o que bem entender."
Veio a dose e outra talagada. O menino debruçado no balcão acompanhava curioso a discussão:
"Você é muito do seu ingrato, Constantino."
"Ah, agora eu sou o ingrato. Perdi o emprego por sua causa e agora sou o ingrato."
O menino coçava o nariz e ria. Tinha uns onze pra doze anos. Era feiinho e torradinho do sol.
"Tá vendo, meu filho? Reze para que nunca apareça em você uma dessas na testa."
"Tenho uma irmã que defeca pelo nariz, moço. Quando espirra, mela a gente todo." Disse o menino.
"Um cju no lugar do nariz. Essa é boa. Tá vendo, Constantino." Disse a Vagina equilibrando o riso.
"É, meu filho, vivemos a época das mutações."
"Ela é esposa do senhor?" Inquiriu o menino já bem animadinho.
"Deus me livre! Prefiro o ânus da sua irmã."
"Não liga não, maninho, ele é grosso assim mesmo. Vê uma dose. Vou acompanhar este infeliz." O menino serviu a dose e esfregou as mãos.
"Issshhh..." Onomatopeou a Vagina após uma golada. O sol já se punha com esgar feroz. As pessoas que passavam por ali eram tocadas pela curiosidade. Não tardou para que a birosca de beira de rua fosse tomada de gente. Mesas e cadeiras ganhavam a calçada. O menino nunca tinha visto tanto movimento assim e alegrava-se. Constantino e a Vagina, mergulhados ainda numa discussão calorosa, sequer davam conta do espetáculo que proporcionavam áquela gente toda. Havia até quem se solidarizasse mais com a Vagina do que com o próprio Constantino. Opiniões se dividiam gerando reflexões e discussões paralelas:
"É verdade o que a Vagina diz." Disse a mulher para o companheiro. "E eu que me dei tanto trabalho para um traste como você."
"Arrependida agora,é? Pois então pega as tuas coisas e suma da minha vida ainda hoje."
Na outra mesa:
"Você é uma puta! Nada além de uma puta!"
"Sou uma filha da puta sim, ou não estaria vivendo todo esse tempo ao teu lado."
Um bêbado mais exaltado gritava de sua mesa:
"Não deixa ela montar, não! Bota ela pra domir!"
Ao se aperceberem do clima pesado que pairava sobre o lugar, Constantino teve o bom senso de pagar a última dose e sair dali. Atravessou a rua em passos trôpegos e tomou um táxi:
"Para a Rua das Violetas, moço!"
"auto retrato" (Edvard Munch)
"Coragem, Constantino, e nada de se humilhar pra este infeliz." Advertiu a Vagina.
"Por que não fecha esses lábios?" Resmungou ele. Cruzaram o corredor e adentraram a sala. O chefe falava ao telefone e fez sinal para que eles sentassem. Constantino esperou angustiosos minutos. Havia sobre a mesa, uma carta de demissão. Ele sentiu frio e tristeza na alma. O chefe finalmente desligou e voltou sua atenção para Constantino. Os olhos do chefe eram frios. Duros e frios como de um gavião.
"Creio que o senhor já sabe do que se trata, seu Constantino."
"Não, senhor, não sei."
"Está sendo demitido."
Ficou um tempo calado. Depois perguntou:
"E qual a razão de minha demissão, seu Valdeci?"
"Razões bem óbvias: Constrangimento aos colegas e desacato patronal." Constantino piscou muitas vezes.
"Não entendi, senhor."
"Entendeu sim, seu Constantino. Mas não precisa se preocupar. Iremos indenizá-lo direitinho. Vai poder finalmente realizar seu grande sonho que é de ir aio Caribe."
"Não quero ir mais ao Caribe, seu Valdeci. Preciso do meu emprego. Preciso terminar meu livro."
"Não se humilhe pra este infeliz, Constantino!" Meteu-se a Vagina.
"Veja lá como fala, vagininha. Não se esqueça que você é a grande culpada." Berrou o chefe.
"Ela está só de passagem, seu Valdeci. Hoje mesmo será removida da minha testa, prometo. Sua estada aqui é um mero equívoco."
"Não torne as coisas mais difíceis, seu Constantino."
"São vinte anos, seu Valdeci."
"Por isso mesmo. Não precisamos mais de seus serviços. Procure entender."
Constantino tinha os olhos lacrimejantes. Era de doer até nos objetos.
"Sem mais delongas. Assine a carta e vamos dar por encerrado o assunto." Sentenciou o chefe.
"Assina lolgo esse troço e enfia no rabo desse infeliz sem alma." Ruminou a Vagina.
Constantino não via outra saída. Com as mãos trêmulas, assinou a carta. Saiu cabisbaixo da mesma forma que entrou. Horas depois - em silencio - Constantino encaixotava suas coisas. Um anão emergido de uma pilha de papéis mofentos veio solidarizar-se com ele:
"Constantino..."
"Fala, Pires."
"O que vai ser de mim e desse almoxarifado, agora que voc6e foi demitido?"
"Não sei, Pires. Nem mesmo sei de mim."
"Então, desejo-lhe muita sorte, amigo."
"Obrigado, Pires."
Na saída, Cíntia quis saber:
"Quem era este, Constantino, que eu ainda não conhecia?"
"Quem, o Pires? Grande amigo. Começamos juntos no almoxarifado. Mas que diabos, isso não lhe interessa!"
***
Parou na primeira birosca que encontrou no caminho. Não havia ninguém e era onze de uma manhã bolorenta. Pediu uma dose de cachaça a um garoto que fazia ás vezes de atendente:
"Faz de propósito, não é Constantino?" Disse a Vagina, referindo-se ao lugar.
"Se não gostas dos lugares que frequento e da vida que levo, desapareça da minha testa."
"E acha que é assim, tão simples?" Você precisa de mim tanto quanto eu preciso de você, meu caro. É o que se chama de simbiose."
"Suma da minha testa! Você desgraça a minha vida."
O moleque serviu a dose sem tirar os olhos da testa de Constantino. Este deu uma talagada e pediu outra:
"Agora vai se matar nessa birosca fedida, é?"
"A vida é minha. Faço dela o que bem entender."
Veio a dose e outra talagada. O menino debruçado no balcão acompanhava curioso a discussão:
"Você é muito do seu ingrato, Constantino."
"Ah, agora eu sou o ingrato. Perdi o emprego por sua causa e agora sou o ingrato."
O menino coçava o nariz e ria. Tinha uns onze pra doze anos. Era feiinho e torradinho do sol.
"Tá vendo, meu filho? Reze para que nunca apareça em você uma dessas na testa."
"Tenho uma irmã que defeca pelo nariz, moço. Quando espirra, mela a gente todo." Disse o menino.
"Um cju no lugar do nariz. Essa é boa. Tá vendo, Constantino." Disse a Vagina equilibrando o riso.
"É, meu filho, vivemos a época das mutações."
"Ela é esposa do senhor?" Inquiriu o menino já bem animadinho.
"Deus me livre! Prefiro o ânus da sua irmã."
"Não liga não, maninho, ele é grosso assim mesmo. Vê uma dose. Vou acompanhar este infeliz." O menino serviu a dose e esfregou as mãos.
"Issshhh..." Onomatopeou a Vagina após uma golada. O sol já se punha com esgar feroz. As pessoas que passavam por ali eram tocadas pela curiosidade. Não tardou para que a birosca de beira de rua fosse tomada de gente. Mesas e cadeiras ganhavam a calçada. O menino nunca tinha visto tanto movimento assim e alegrava-se. Constantino e a Vagina, mergulhados ainda numa discussão calorosa, sequer davam conta do espetáculo que proporcionavam áquela gente toda. Havia até quem se solidarizasse mais com a Vagina do que com o próprio Constantino. Opiniões se dividiam gerando reflexões e discussões paralelas:
"É verdade o que a Vagina diz." Disse a mulher para o companheiro. "E eu que me dei tanto trabalho para um traste como você."
"Arrependida agora,é? Pois então pega as tuas coisas e suma da minha vida ainda hoje."
Na outra mesa:
"Você é uma puta! Nada além de uma puta!"
"Sou uma filha da puta sim, ou não estaria vivendo todo esse tempo ao teu lado."
Um bêbado mais exaltado gritava de sua mesa:
"Não deixa ela montar, não! Bota ela pra domir!"
Ao se aperceberem do clima pesado que pairava sobre o lugar, Constantino teve o bom senso de pagar a última dose e sair dali. Atravessou a rua em passos trôpegos e tomou um táxi:
"Para a Rua das Violetas, moço!"
"auto retrato" (Edvard Munch)
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
PARTE V - ADALBERTO, GUIMARÃES E O ROSA. OS AMIGOS DE CONSTANTINO
NA REPARTIÇÃO, A VAGINA PARECEU querer mesmo arruinar de vez com a reputação de Constantino. Começou caçoando de sua condição de funcionariozinho mal pago: "Em que testa eu vim parar?" Depois, com seu discurso feminista e absurdo acerca do papel das vaginas no mercado de trabalho, acabou por deixar o chefe de Constantino muito irritado. Causou também ira e ranger de dentes nas funcionárias, chamando-as de subalternas e submissas. E coroando o dia, divertiu as copeiras contando a elas, anedotas sobre as qualidades e os defeitos de um falo. Foi sem dúvida, um dia fatídico para Constantino que viu sua vida ruir-se em questão de horas. Por conta disso, terminou cedo o expediente não suportando mais tantos cochichos pelos corredores da repartição:
"Vamos embora! Você passou dos limites." Brandiu Constantino.
"Aonde vamos, querido?" Animou-se a Vagina.
"Não lhe interessa!"
***
Quem primeiro o viu chegar todo estranho por ali, foi o Rosa que acenou da mesa para ele:
"Olha o Constantino! Aqui, Constantino!!"
"E que diabos é aquilo em sua testa?" Estranhou Adalberto. Constantino caminhou até eles. Sentou-se. Guimarães fez sinal para vir mais chops. O lugar era animado e transbordava de bebuns. Refeitos da surpresa insólita, um deles, o Adalberto, perguntou:
"Então, Constantino? Não vai nos apresentar?"
"Claro! essa é a Cíntia. Cíntia, este é o Adalberto, acolá o Guimarães e ao seu lado, o Rosa."
Feito as apresentações, ele acendeu um cigarro. E aí então começaram as investidas:
"Diz aí, Cíntia, como é viver na testa de um infeliz desses?" Provocou o Rosa.
"É como viver na testa de qualquer infeliz, inclusive na sua." Fuzilou. Adalberto deu uma gargalhada. Constantino foi encolhendo-se na cadeira.
"Essa é das minhas." Falou Guimarães.
"Desde que não tenha sífilis, querido." Arrematou a Vagina.
"Bem atrevidinha, ela." Observou Guimarães, recompondo-se.
"Dizem que as vaginas são parasitas, é verdade?" Provocou novamente o Rosa.
"Quem lhe disse isso? sua mãe?" Rebateu ela.
"O Constantino me aparece com cada marmota." Observou Adalberto sacudindo a cabeça. "Garçom, um tira gosto!" Foi a vez da Vagina dar uma gargalhada escandalosa que se misturoú ás outras risadas soltas, no bar. Depois, suspirou entediada:
"Ai, ai..."
"Mas, sim, Constantino, e o livro? Em que pé está?" Desconversou Guimarães.
"Indo." Grunhiu, ele.
"Sabia, Cíntia, que Constantino está escrevendo uma novela?" Indagou Adalberto.
"Não. Não sabia. Ele não me diz nada. Só hoje vim saber que trabalha no almoxarifado e ainda por cima é religioso."
"Mais um livro que não vende." Interveio o Rosa, desdenhoso.
"Ainda me lembro do primeiro: teórico demais. E este então, um absurdo." Frisou Guimarães, que por ser jornalista, julgar-se-ia o mais culto dos três.
"Constantino devia parar com essa mania de ser escritor, você não acha, Cíntia?" Perguntou o Rosa.
"Tenho só três dias em sua testa, querido. Depois, ele é quem sabe." Respondeu secamente. Houve um breve silencio.
"O que faz da vida, Cíntia?" Todos aqui temos uma profissão. Guimarães, por exemplo, é jornalista, o Adalberto é gerente hoteleiro, e eu eu trabalho na câmara municipal."
"Ferrado aqui mesmo, só o Constantino. Vinte anos numa repartição." Acrescentou Adalberto.
"Então, Cíntia, o que faz?" Insistiu o Rosa.
"O que faço..." A Vagina pareceu refletir um pouco. "Bom, no momento estou desempregada. Mas já fiz de tudo um pouco. Comecei no circo, engolindo espadas. O circo faliu e aí tive que trabalhar como montadora numa fábrica. Não deu muito certo não e comecei a fazer bicos para poder viver. Virei-me us tempos com os produtos da Avon, mas achei muito chato. Meu último trabalho foi como garçonete numa casa noturna. Na época, residia no queixo de um travesti que me acolheu amorosamente. O gerente achou que eu tinha mais futuro como streep, foi então quem mandei ele aquele lugar e obviamente fui demetida. Desde então não tenho feito nada de especial. Queria mesmo era voltar a trabalhar no circo. Tá no sangue. Mas os circos hoje, tornaram-se decadentes. Acho que não existem mais. Achei por bem tirar umas férias. Tornei-me itinerante. É isso. Satisfeitos?"
"Comovente." Disse Rosa avizinhando-se dela. Constantino bocejava.
"Tenho uma tese acerca das vaginas modernas." Falou categórico, Guimarães.
"Então nos fale, meu catedrático Guimarães." Disse Rosa fazendo pose de ouvinte interessado.
"A Vagina moderna assumiu três qualidades incontestáveis."
"Quais?" Os dois quiseram saber.
"Tornaram-se arrogantes, mais seletivas e meras reprodutoras."
"E o que nos diz o Constantino?" Adalberto virou-se para ele. Em resposta, Constantino encolheu os ombros.
"Vê-se a inutilidade do homem diante de uma vagina. Sthendal é que tinha razão: "quando os homens perdem a cabeça, as vaginas adquirem sobre eles sua aparente sjuperioridade." Parodiou Guimarães.
"Nesse caso, meju caro, mais uma qualidade." Observou Rosa.
"??"
"São oportunistas."
A gargalhada dos três foi geral. A cabeça de Constantino girava bem devagar, enquanto a Vagina encarava com um meio sorriso os três amigos que davam risadas.
"Pelo visto a discussão aqui resvalou para o culto." Observou Adalberto.
"Se a Cíntia não resoilveu baixar o nível." Disse Guimarães.
"Mas e aí, Cíntia? O que me diz dessa tese?" Perguntou Rosa, triunfal.
"Guimarães não passa de um jornalistazinho, leitor de rodapé." Respondeu ela. O sorriso de Guimarães foi aos poucos se dissolvendo. Rosa e Adalberto ainda riam á beça. "E você, Rosa, com este outro aí com cara resignada de flautista de chorinho, não passam de uns idiotas. Constantino, quero ir ao banheiro!"
Ordenou ela.O corpo suculento de Adalberto ainda dava espasmos de tanto rir. Rosa soprava as cinzas do cigarro que lhe caiam nos ombros e também ria. Ria muito. Guimarães fez uma careta depois do derradeiro gole e reclamou mais chops.
"Essa tal de Cíntia é mesmo atrevida."
"O que ela tem de atrevida tem de graciosa. Repararam na penugem loira em volta dos lábios?"
"Tem é muita sorte, o Constantino. Vive de brisa e ainda lhe nasce uma vagina de graça."
"Devia dá era graças á Deus. Elas andam tão ariscas."
"Dessa vez sossega."
"Só se for com um infarto."
"Ou então escreva algo mais decente."
"Ou indecente. Agora com uma vagina na testa."
"Aquela da sífilis foi ótima. Tem senso de humor."
"Tão desatualizada."
"Já não achei tanto."
"Elas tem resposta pra tudo."
"Do orifício virá a grande desgraça."
"Ih, já tá bêbado."
"Lá vem eles, calados!"
O casal voltou e acomodou-se á mesa.
"Me dá um cigarro, coisinha." Disse a Vagina á Guimarães.
"Essa eu quero ver." Animou-se o Rosa. Guimarães, num gesto nobre, acndeu-lhe o cigarro. A Vagina deu uma longa tragada. Se tivesse pernas, as cruzaria com extraordinária elegancia.
"E ainda sabe tragar, a vadia..." Murmurou injuriado, Adalberto.
Eram quase uma da manhã e o garçom já os olhava bastante zangado enquanto empilhava as mesas. A esta altura, Constantino desfalecia sobre a cadeira. Rosa, bem próximo da Vagina, sussurrou-lhe alguma coisa arrancando-lhe um sorriso encabulado.
"Olha só o sacana do Rosa, cantando a Vagina."
"E olha como ela ri. No fundo, são todas umas safadas."
Confabulavam indignados os dois amigos. Foi então que numa atitude insana, Rosa tascou um beijo na testa de Constantino. Ou melhor, na Vagina. Um beijo que se prolongou por minutos.
"Olha só! Tá vendo? Deu-se bem o cafajeste do Rosa."
Ouviu-se então um urro agonizante que ecoou pelos quatro cantos do bar, já vazio. Rosa levantou-se num salto e, aos gritos, ganhou rumo ignorado. Um filete de sangue escorria calado do canto da Vagina. Sobre a mesa, jazia um pedaço insignificante de carne misturado com as azeitonas frias.
"Mas o que aconteceu?"
Constantino despertou com o grito. Os outros dois olhavam-se boquiabertos.
"Dessa vez ele aprende! Agora paga a nossa parte e vamos embora!" Ordenou a Vagina.
No dia seguinte, graças a Guimarães que ganhou respeito pelo furo, lia-se estampado nos jornais:
NUMA FÚRIA HEDIONDA E INEXPLICÁVEL, VAGINA ARRANCA FORA A PONTA DA LÍNGUA DE UM FUNCIONÁRIO MUNICIPAL, NO BAR.
"... logo a ponta?"
"... e pare de piscar, isso me irrita!"
"Night café in Mollin Rouge" (Lautrec)
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
CAPITULO IV - O DESTINO DO PADRE FRITZ
ESTRANHAMENTE NAQUELA MANHÃ, os sinos da Igreja bateram fora da hora. Os fiéis, os devassos, os inomináveis acudiram todos para lá. Quando ali chegaram, deram atônitos com o corpo do padre que ainda balançava no arsuspenso pelas grossas cordas do sino. Formou-se um leve burburinho que foi crescendo e tomando conta do bairro todo. A notícia chegou até a mercearia do seu Juca - o português - onde Constantino tomava seu costumeiro café e se inteirava das notícias pelo jornal. Ainda não havia chegado a mercearia, por sinal,mas já se encontrava á caminho, cruzando com rostos aflitos e calamitosos que passavam por ele afluindo em direção á praça. A esta altura, Constantino já havia assumido definitivamente a Vagina em sua testa e a expunha livremente, sendo motivo de pilhérias, elogios e cantadas diversas. Entrou na mercearia:
"Seu Juca, me vê meu café, sim?" O português inclinou-se sobre o balcão de vidro dando um longo assobio. Depois, comentou:
"Sempre bem acompanhado, hein, seu Constantino?"
"Me vê meu café é que é, seu Juca."
Sentou-se á mesa e folheou o jornal. A Vagina pôs-se a queixar-se do calor e do lugar.
"Tens um gosto, hein Constantino." Ele não lhe dera ouvidos. Na outra mesa, um bêbado amanhecido lançava-lhes olhares salientes. Vez ou outra Constantino desviava sua atenção para a celuema lá fora. Aproveitou a ocasião em que o português lhe servia o café e perguntou:
"Que diabos deu nessa gente hoje, seu Juca?"
"Então não sabes, gajo?"
"Não."
"O pároco enforcou-se." Constantino deixou cair pesadamente o jornal sobre a mesa.
"Cretino, esse padre! Além de tudo, mentiroso." Vociferou a Vagina.
"Pois não é que fala!" Espantou-se o português.
"Ah, vá á merda!" Disse ela zangada.
"Não ligue seu Juca. Mas me diga, o que houve então com o padre?" Recuperando-se do espanto, seu Juca explicou:
"A consciência deve ter pesado. Vivia a molestar as fiéis. Não respeitava nem as casadas. Dizem as más línguas que a Pretinha, filha de dona Rosenira, embuchou foi dele. Não duvido muito não. Esses padres alemães são safados." E atirando a toalhinha sobre o ombro, voltou para trás do balcão de vidro assobiando animadinho.
"E toda essa conversa de morrer com estilo. Cretino, mentiroso!" Tornou a comentar a Vagina, enraivecida. Constantino afrouxou a gravata. Uma outra preocupação de grau maior lhe veio á tona. O que diria na repartição quando o vissem chegar acompanhado da Vagina? E mais tarde, com os amigos de copo: O Adalberto, o Guimarães e o Rosa? Logo o Rosa, o mais provocador de todos eles. Como ela se comportaria sendo eles uns gozadores e ela atrevida demais? Foi a vez dele reclamar baixinho do calor:
"Não corre um vento! Um ventinho que seja! Dia seco. Imprestável..."
"A Lamentação" (Giotto Scravgni) -
"Seu Juca, me vê meu café, sim?" O português inclinou-se sobre o balcão de vidro dando um longo assobio. Depois, comentou:
"Sempre bem acompanhado, hein, seu Constantino?"
"Me vê meu café é que é, seu Juca."
Sentou-se á mesa e folheou o jornal. A Vagina pôs-se a queixar-se do calor e do lugar.
"Tens um gosto, hein Constantino." Ele não lhe dera ouvidos. Na outra mesa, um bêbado amanhecido lançava-lhes olhares salientes. Vez ou outra Constantino desviava sua atenção para a celuema lá fora. Aproveitou a ocasião em que o português lhe servia o café e perguntou:
"Que diabos deu nessa gente hoje, seu Juca?"
"Então não sabes, gajo?"
"Não."
"O pároco enforcou-se." Constantino deixou cair pesadamente o jornal sobre a mesa.
"Cretino, esse padre! Além de tudo, mentiroso." Vociferou a Vagina.
"Pois não é que fala!" Espantou-se o português.
"Ah, vá á merda!" Disse ela zangada.
"Não ligue seu Juca. Mas me diga, o que houve então com o padre?" Recuperando-se do espanto, seu Juca explicou:
"A consciência deve ter pesado. Vivia a molestar as fiéis. Não respeitava nem as casadas. Dizem as más línguas que a Pretinha, filha de dona Rosenira, embuchou foi dele. Não duvido muito não. Esses padres alemães são safados." E atirando a toalhinha sobre o ombro, voltou para trás do balcão de vidro assobiando animadinho.
"E toda essa conversa de morrer com estilo. Cretino, mentiroso!" Tornou a comentar a Vagina, enraivecida. Constantino afrouxou a gravata. Uma outra preocupação de grau maior lhe veio á tona. O que diria na repartição quando o vissem chegar acompanhado da Vagina? E mais tarde, com os amigos de copo: O Adalberto, o Guimarães e o Rosa? Logo o Rosa, o mais provocador de todos eles. Como ela se comportaria sendo eles uns gozadores e ela atrevida demais? Foi a vez dele reclamar baixinho do calor:
"Não corre um vento! Um ventinho que seja! Dia seco. Imprestável..."
"A Lamentação" (Giotto Scravgni) -
domingo, 30 de janeiro de 2011
PARTE III - CONSTANTINO E A VAGINA VÃO Á IGREJA.
FOI UM CUSTO DANADO para convencer a Vagina de ir á igreja. Mas como todas as vaginas acabam sendo compreensíveis no fritar dos ovos, esta acabou por aceitar, ainda que muito a contragosto.
Constantino acordou de ressaquinha e tomou algumas aspirinas para aliviar a dor de cabeça.A Vagina cantarolava um bolero podre. Lá fora, um sol tirânico dos trópicos queimava o lombo dos transeuntes.
"É uma ideia infveliz essa sua." Disse ela.
"Vamos á Igreja e pronto! Talvez tudo isso seja um pecado. E depois, faz tempo que não vou á Igreja. Aposto que você nunca pisou numa, por isso veio parar aqui na minha testa."
"Se ainda não sabes, é pela testa que o homem esporra o fluxo da consciência."
"Não interessa. Vamos á Igreja e pronto."
Naquele finalzinho de tarde subiram devagar as escadarias da Matriz. As poucas pessoas que haviam na Igreja derramavam suas confissões secretas para a cruz no altar. De joelhos, Constantino rezava baixinho. A Vagina insistia no bolero podre:
"Dá um tempo!"
"O que vai dizer pro padre?" Perguntou ela, enfastiada.
"Que nasceu o pecado em minha testa."
"Os padres são todos pederastas, sabia?"
"Cala a boca! Estamos numa Igreja."
Constantino olhou um instante para a cúpula onde se lia:
"Audi, vide, tace, se vis vivere in pace."
Um anjinho de dois pênis olhava encabulado para ele. Constantino levantou-se e dirigiu-se ao confessionário. Fez uma ligeira genuflexão e iniciou a conversa com o padre:
"Padre..."
"Pois não, meu filho."
"Eu pequei, padre! e o resultado desse pecado nasceu em minha testa. Veja o senhor!"
O padre olhou. "Pater Noster!!! - Espantou-se o padre. "Como isso nasceu aí, meu filho?"
"Não sei explicar, padre. Tudo que eu queria era alguém que me escutasse, então nasceu esta aberração."
"E uma vagina, filho."
"Pois não é, padre. Uma vagina. E me veio nascer logo na testa."
O padre ajeitou-me melhor para ver de perto. Os pombos arrulhavam por ali.
"Ela lhe incomoda, filho?"
"Ela fala muito, padre."
O padre se aproximou um pouco mais.
"Diga alguma coisa, bebê!"
"Padre escroto!"
"Pois veja! Ela me chamou de escroto."
"Ainda por cima é atrevida. Mas me diga, padre, qual é o meu pecado?"
O padre pensou bem. E disse:
"Não há pecado algum. Converse com ela, meu filho. Explique a ela as necessidades do homem, as lamúrias da carne." Tocou levemente as mãos de Constantino. Apertou-as por sinal. Os pombos agora arrulhavam escandalosos. Um jato de luz varou os vitrais da catedral iluminando a face larga e rosada do sacerdote. Os olhos dele, antes castanhos, ficaram azuis. Uma azul melancólico. Constantino, é claro, reparou:
"Padre! Seus olhos ficaram azuis!"
"Ficam assim quando estou triste, sentimental." Respondeu o padre. Constantino coçou levemente as pestanas, pensativo.
"E será que vai adiantar conversar com ela, padre? Ela me parece muito geniosa."
" Com jeitinho, sim. Não é minha criança?"
"Puto!"
"Não devo rezar nada? um rosário? um terço? nada?"
"Essas coisas não adiantam muito, meu filho. São desatinos da alma. Quer um conselho?" Conspirou baixinho no ouvido de Constantino:"Deixe a carne livre!"
"Então me vou, padre, mais aliviado agora."
E partiram. Fizeram o caminho de volta seguindo por uma rua estreita. Constantino ia calado enqjuanto a Vagina assobiava agora um sambinha azedo. Parou de assobiar e dirigiu-se a ele:
"Reparou?"
"No que?"
"Ele está nos seguindo."
"Quem?"
"Ora quem? o padre."
E de fato, o padre os seguia. Seu vulto comprido e europeu esgueirava-se por ali, na penumbra dos postes.
"Que diabos ele quer?"
"O que acha? entra ali!" Apontou com o beiço, a Vagina.
"Ali? mas é um inferninho!"
"E daí? nunca entrou num antes?"
Entraram convictos que despistariam o padre. Este, por sua vez, não se fez de rogado adentrando no recinto sem hesitar. Uma vez lá dentro, casal aboletou-se no balcão.
"Este infeliz não vai ter a coragem de entrar aqui." Falou a Vagina. "Cuida! pede uma cerveja."
Foi servida uma cerveja e eles deram logo uma golada. Os olhos do padre procuravam o casal por todos os cantos. Como era um sujeito bastante alto, não demorou muito para localizá-los. Foi até lá. Escorou-se bem ao lado de Constantino, que entretido, olhava as meninas que brincavam no palco.
"Olá, meu rapaz!"
"Padre?"
"Não se angustie, meu filho. Também sou apreciador da carne."
Constantino pensou um pouco:
"Mas padre, não está errado?"
"Somos fruto da mesma lama, filho. Garçom, uma cerveja!"
Constantino olhou para ele que parecia bem mais jovem metido numa calça jeans justa e uma camiseta regata de cor preta. Expunha ali, todo um porte atlético. Dir-se-ia um pugilista aposentado.
"Mas padre, e os fiéis de sua igreja?"
"O velho costume ocidental de nos redimirmos por qualquer besteira. Faço apenas minha parte consolando estes infelizes."
Acendeu um cigarro e perguntou em seguida, levando o dedo á testa de Constantino:
"E a nossa menina, como está?" Em resposta, levou uma mordida. "Aiii, ela me mordeu, pois veja!"
"Esqueci de lhe avisar, padre. Ela é denteada."
"Padre Fritz." Corrigiu Constantino. "Sabe, meu rapaz, a vida no seminário me foi muito penosa. Cruel mesmo, eu diria. Qualquer lugar que se prive o homem dos anseios da carne, de sua estética amoral e de seus instintos mais básicos, acaba por transformar esse homem num pobre diabo. Nessas horas um cão tem mais valor que um homem. Se é que o senhor me entende. Suponho que sim, pois que também figura bem abaixo dos cães. Não foi á-toa, afirmo-lhe, que ela veio parar aí, na sua testa.
"Como assim, padre?" Constantino procurou disfarçar o embaraço. "Já o vi diversas vezes na pracinha, frente á Igreja, alimentando os pombos, quando na verdade cortejava as cadelinhas com pedigree. Não o condeno por isso, pois que também é um recurso para conseguir o que se deseja.
"É um canalha!" Sussurrou a Vagina entre os dentes. "Despache-o!"
"Padre, não tenho interesse algum no que diz." Falou Constantino com polidez.
"Penso que sim. Mas deixe-me contar as agruras do amigo."
Deu uma golada em sua cerveja e em seguida tragou pecadoramente seu cigarro:
"Não fui parar em um seminário por pura vocação, não. Mas sim, por causa de uma decepção amorosa. E foram muitas as decepções que pontuaram minha vida. A última foi a gota d'água e quase levou-me ao suicídio Optei pelo envenenamento tomando um litro todo dos produtos "Modalva" que contém alcalinos e hipoclorito de sódio, e digo-lhe, meu filho, não aconselho o envenenamento á ninguém, tampouco cortar os pulsos ou enforcar-se. Um tiro na cabeça eu recomendaria. Tem mais estilo. Pouca gente morre hoje com estilo. Contudo, minha tentativa foi em vão. Tornar-se um padre foi o que eu fiz. Ficaria assim, longe das paixões ardilosas que sempre cambaleiam para as desgraças do amor. Experimentaria um outro tipo de amor. O amor metafísico, não mais o cármico. Era o que eu pensava uma hora atrás até vocês me pisarem naquela Igreja."
"E?"
"Fizeram-me repensar os caminhos tortuosos do sacerdócio a que equivocadamente me dediquei."
"Seja mais objetivo, padre."
"Obviamente, meu rapaz. Apaixonei-me por ela."
"Por quem, padre?"
"Por sua vagina. Embora ela esteja convivendo com o senhor, aí, na sua testa, acredito que seja temporário, sem vínculo amoroso algum. De modo que..."
"Eu não lhe disse?" Interveio a Vagina.Vamos embora! Nem mais um minuto."
"Francamente, padre."
Constantino preparava-se para deixar o lugar quando o padre insistiu novamente segurando-lhe delicadamente um dos braços.
Ësperem um pouco! Quero convidá-los para um almoço amanhã em minha casa, em razão de meu aniversário. Completo 45 estações de chuva."
"Nem que a vaca tussa." Disse ela dessa vez.
"Amanhã nos é impossível, padre. Levarei Cíntia para passear no cais."
"Cíntia? Espantou-se, ela.
"Já tem até nome. Que linda! Quando os vejo de novo?"
"Não sei padre. Passar bem o senhor."
Constantino e a Vagina deixaram o inferninho. O padre ficou lá no balcão com sua cerveja e com sua tristeza infinita transbordando em azul.
"O Dragão do pecado" (William Blake)
Constantino acordou de ressaquinha e tomou algumas aspirinas para aliviar a dor de cabeça.A Vagina cantarolava um bolero podre. Lá fora, um sol tirânico dos trópicos queimava o lombo dos transeuntes.
"É uma ideia infveliz essa sua." Disse ela.
"Vamos á Igreja e pronto! Talvez tudo isso seja um pecado. E depois, faz tempo que não vou á Igreja. Aposto que você nunca pisou numa, por isso veio parar aqui na minha testa."
"Se ainda não sabes, é pela testa que o homem esporra o fluxo da consciência."
"Não interessa. Vamos á Igreja e pronto."
Naquele finalzinho de tarde subiram devagar as escadarias da Matriz. As poucas pessoas que haviam na Igreja derramavam suas confissões secretas para a cruz no altar. De joelhos, Constantino rezava baixinho. A Vagina insistia no bolero podre:
"Dá um tempo!"
"O que vai dizer pro padre?" Perguntou ela, enfastiada.
"Que nasceu o pecado em minha testa."
"Os padres são todos pederastas, sabia?"
"Cala a boca! Estamos numa Igreja."
Constantino olhou um instante para a cúpula onde se lia:
"Audi, vide, tace, se vis vivere in pace."
Um anjinho de dois pênis olhava encabulado para ele. Constantino levantou-se e dirigiu-se ao confessionário. Fez uma ligeira genuflexão e iniciou a conversa com o padre:
"Padre..."
"Pois não, meu filho."
"Eu pequei, padre! e o resultado desse pecado nasceu em minha testa. Veja o senhor!"
O padre olhou. "Pater Noster!!! - Espantou-se o padre. "Como isso nasceu aí, meu filho?"
"Não sei explicar, padre. Tudo que eu queria era alguém que me escutasse, então nasceu esta aberração."
"E uma vagina, filho."
"Pois não é, padre. Uma vagina. E me veio nascer logo na testa."
O padre ajeitou-me melhor para ver de perto. Os pombos arrulhavam por ali.
"Ela lhe incomoda, filho?"
"Ela fala muito, padre."
O padre se aproximou um pouco mais.
"Diga alguma coisa, bebê!"
"Padre escroto!"
"Pois veja! Ela me chamou de escroto."
"Ainda por cima é atrevida. Mas me diga, padre, qual é o meu pecado?"
O padre pensou bem. E disse:
"Não há pecado algum. Converse com ela, meu filho. Explique a ela as necessidades do homem, as lamúrias da carne." Tocou levemente as mãos de Constantino. Apertou-as por sinal. Os pombos agora arrulhavam escandalosos. Um jato de luz varou os vitrais da catedral iluminando a face larga e rosada do sacerdote. Os olhos dele, antes castanhos, ficaram azuis. Uma azul melancólico. Constantino, é claro, reparou:
"Padre! Seus olhos ficaram azuis!"
"Ficam assim quando estou triste, sentimental." Respondeu o padre. Constantino coçou levemente as pestanas, pensativo.
"E será que vai adiantar conversar com ela, padre? Ela me parece muito geniosa."
" Com jeitinho, sim. Não é minha criança?"
"Puto!"
"Não devo rezar nada? um rosário? um terço? nada?"
"Essas coisas não adiantam muito, meu filho. São desatinos da alma. Quer um conselho?" Conspirou baixinho no ouvido de Constantino:"Deixe a carne livre!"
"Então me vou, padre, mais aliviado agora."
E partiram. Fizeram o caminho de volta seguindo por uma rua estreita. Constantino ia calado enqjuanto a Vagina assobiava agora um sambinha azedo. Parou de assobiar e dirigiu-se a ele:
"Reparou?"
"No que?"
"Ele está nos seguindo."
"Quem?"
"Ora quem? o padre."
E de fato, o padre os seguia. Seu vulto comprido e europeu esgueirava-se por ali, na penumbra dos postes.
"Que diabos ele quer?"
"O que acha? entra ali!" Apontou com o beiço, a Vagina.
"Ali? mas é um inferninho!"
"E daí? nunca entrou num antes?"
Entraram convictos que despistariam o padre. Este, por sua vez, não se fez de rogado adentrando no recinto sem hesitar. Uma vez lá dentro, casal aboletou-se no balcão.
"Este infeliz não vai ter a coragem de entrar aqui." Falou a Vagina. "Cuida! pede uma cerveja."
Foi servida uma cerveja e eles deram logo uma golada. Os olhos do padre procuravam o casal por todos os cantos. Como era um sujeito bastante alto, não demorou muito para localizá-los. Foi até lá. Escorou-se bem ao lado de Constantino, que entretido, olhava as meninas que brincavam no palco.
"Olá, meu rapaz!"
"Padre?"
"Não se angustie, meu filho. Também sou apreciador da carne."
Constantino pensou um pouco:
"Mas padre, não está errado?"
"Somos fruto da mesma lama, filho. Garçom, uma cerveja!"
Constantino olhou para ele que parecia bem mais jovem metido numa calça jeans justa e uma camiseta regata de cor preta. Expunha ali, todo um porte atlético. Dir-se-ia um pugilista aposentado.
"Mas padre, e os fiéis de sua igreja?"
"O velho costume ocidental de nos redimirmos por qualquer besteira. Faço apenas minha parte consolando estes infelizes."
Acendeu um cigarro e perguntou em seguida, levando o dedo á testa de Constantino:
"E a nossa menina, como está?" Em resposta, levou uma mordida. "Aiii, ela me mordeu, pois veja!"
"Esqueci de lhe avisar, padre. Ela é denteada."
"Padre Fritz." Corrigiu Constantino. "Sabe, meu rapaz, a vida no seminário me foi muito penosa. Cruel mesmo, eu diria. Qualquer lugar que se prive o homem dos anseios da carne, de sua estética amoral e de seus instintos mais básicos, acaba por transformar esse homem num pobre diabo. Nessas horas um cão tem mais valor que um homem. Se é que o senhor me entende. Suponho que sim, pois que também figura bem abaixo dos cães. Não foi á-toa, afirmo-lhe, que ela veio parar aí, na sua testa.
"Como assim, padre?" Constantino procurou disfarçar o embaraço. "Já o vi diversas vezes na pracinha, frente á Igreja, alimentando os pombos, quando na verdade cortejava as cadelinhas com pedigree. Não o condeno por isso, pois que também é um recurso para conseguir o que se deseja.
"É um canalha!" Sussurrou a Vagina entre os dentes. "Despache-o!"
"Padre, não tenho interesse algum no que diz." Falou Constantino com polidez.
"Penso que sim. Mas deixe-me contar as agruras do amigo."
Deu uma golada em sua cerveja e em seguida tragou pecadoramente seu cigarro:
"Não fui parar em um seminário por pura vocação, não. Mas sim, por causa de uma decepção amorosa. E foram muitas as decepções que pontuaram minha vida. A última foi a gota d'água e quase levou-me ao suicídio Optei pelo envenenamento tomando um litro todo dos produtos "Modalva" que contém alcalinos e hipoclorito de sódio, e digo-lhe, meu filho, não aconselho o envenenamento á ninguém, tampouco cortar os pulsos ou enforcar-se. Um tiro na cabeça eu recomendaria. Tem mais estilo. Pouca gente morre hoje com estilo. Contudo, minha tentativa foi em vão. Tornar-se um padre foi o que eu fiz. Ficaria assim, longe das paixões ardilosas que sempre cambaleiam para as desgraças do amor. Experimentaria um outro tipo de amor. O amor metafísico, não mais o cármico. Era o que eu pensava uma hora atrás até vocês me pisarem naquela Igreja."
"E?"
"Fizeram-me repensar os caminhos tortuosos do sacerdócio a que equivocadamente me dediquei."
"Seja mais objetivo, padre."
"Obviamente, meu rapaz. Apaixonei-me por ela."
"Por quem, padre?"
"Por sua vagina. Embora ela esteja convivendo com o senhor, aí, na sua testa, acredito que seja temporário, sem vínculo amoroso algum. De modo que..."
"Eu não lhe disse?" Interveio a Vagina.Vamos embora! Nem mais um minuto."
"Francamente, padre."
Constantino preparava-se para deixar o lugar quando o padre insistiu novamente segurando-lhe delicadamente um dos braços.
Ësperem um pouco! Quero convidá-los para um almoço amanhã em minha casa, em razão de meu aniversário. Completo 45 estações de chuva."
"Nem que a vaca tussa." Disse ela dessa vez.
"Amanhã nos é impossível, padre. Levarei Cíntia para passear no cais."
"Cíntia? Espantou-se, ela.
"Já tem até nome. Que linda! Quando os vejo de novo?"
"Não sei padre. Passar bem o senhor."
Constantino e a Vagina deixaram o inferninho. O padre ficou lá no balcão com sua cerveja e com sua tristeza infinita transbordando em azul.
"O Dragão do pecado" (William Blake)
sábado, 29 de janeiro de 2011
CAPITULO II - POR MAIS ABSURDO QUE FOSSE, A VAGINA FALAVA
Á NOITE, CONSTANTINO FITAVA em silêncio o teto desbotado de seu quarto quando ouviu repentinamente uma voz lhe indagar:
"Então? Vais ficar aí parado a noite inteira pensando?"
"Hein?"
Pulou da cama, assustado.
Vamos dar uma volta, tomar um chop, nos divertir, cuida!"
"Mas que raios! Quem está falando?"
"Eu aqui, na sua testa, esqueceu?"
Por mais absurdo que fosse, a vagina falava.
"Ainda por cima, fala!"
"Pois é... agora troque esse pijama ridículo, ponha uma roupa decente e vamos dar uma voltinha, anda!"
Ainda muito aturdido, Constantino obedeceu.
"Antes de sairmos, espere só alguns minutinhos."
"Por que?"
"O telefone vai tocar. Eu sei como são os homens."
Constantino aguardou. Dito e feito. O telefone tocou. Atendeu:
"Sim?"
"Boa noite! É o seu Constantino?" Perguntou uma voz educada.
"É ele sim, pois não."
"Seu Constantino, é o doutor Cavalcante, lembra? esteve hoje no meu consultório pela manhã."
"Ah, sim, recordo."
"Bom, liguei para... saber como está passando, e também para convidá-lo
para jantarmos juntos."
"Diga a ele que não pode, que já tem compromisso." - Sussurrou a Vagina.
"Hoje não posso, doutor."
"Ora, mais porquê?"
"É que tenho um compromisso."
Silencio do outro lado.
"Posso ligar amanhã? - Insistiu o médico."
"Talvez. Passar bem, doutor."
Desligou.
Ele nunca me enganou desde o início." Falou a Vagina. "Não valem nada. Agora vamos indo."
***
A cidade fervilhava. Os bares lotados de gente. Constantino entrou numa choperia animada. No balcão, pediu um chop de seu agrado. Deu uma golada e respirou fundo:
"Não é uma delícia?" - Perguntou a Vagina. "Agora peça um pra mim, levante esse olhar e procure se divertir."
"Isto não está acontecendo..." Reclamou Constantino.
"É claro que está. Encare os fatos e pare de piscar, isso me irrita."
Pelas tantas, um jovem de porte atlético, escorou-se no balcão, bem próximo de Constantino. Pediu um chop e dirigindo-se á Vagina, puxou conversa:
"Tudo bom, princesa?" sozinha? esperando alguém?"
"Diga a ele que está esperando alguém. Não me obrigue a falar." - Ordenou a Vagina, mordendo os lábios.
"Estamos sim, cavalheiro. Aguardamos alguém."
"Namorado?"
"Não interessa! Diga a ele."
"Não lhe diz respeito, moço!"
"Desculpa então."
E o jovem retirou-se, constrangido.
"Muito bom, Constantino. Viu só como não é nada fácil para nós? Eles não nos deixam em paz um só minuto. Ás vezes é preciso ser deselegantes com eles, mas só ás vezes, entendeu? Alguns até que merecem nossa atenção, outros..."
"Cala essa boca!" Gritou Constantino. As pessoas em volta olharam para ele. Desculpou-se e tudo voltou ao normal.
"Nunca mais fale nesse tom comigo, ouviu seu Constantino?" Protestou a Vagina bastante irritada. "Peça mais chops!"
Após o quinto ou sexto chopm ela pediu para ir ao banheiro. Lá, a cena seria constrangedora se não fosse hilária. Um bêbado adentrou cambaleante ao banheiro e o flagrou inclinado com a testa bem próxima ao bidê:
"O que o senhor está fazendo? Está passando bem?"
Constantino, que por sua vez já estava bem alto dos chops, respondceü:
"Não vê que estou ocupado, urinando pela testa?"
Naquela mesma noite, ele decidiu:
"Amanhã vamos á Igreja!"
"Então? Vais ficar aí parado a noite inteira pensando?"
"Hein?"
Pulou da cama, assustado.
Vamos dar uma volta, tomar um chop, nos divertir, cuida!"
"Mas que raios! Quem está falando?"
"Eu aqui, na sua testa, esqueceu?"
Por mais absurdo que fosse, a vagina falava.
"Ainda por cima, fala!"
"Pois é... agora troque esse pijama ridículo, ponha uma roupa decente e vamos dar uma voltinha, anda!"
Ainda muito aturdido, Constantino obedeceu.
"Antes de sairmos, espere só alguns minutinhos."
"Por que?"
"O telefone vai tocar. Eu sei como são os homens."
Constantino aguardou. Dito e feito. O telefone tocou. Atendeu:
"Sim?"
"Boa noite! É o seu Constantino?" Perguntou uma voz educada.
"É ele sim, pois não."
"Seu Constantino, é o doutor Cavalcante, lembra? esteve hoje no meu consultório pela manhã."
"Ah, sim, recordo."
"Bom, liguei para... saber como está passando, e também para convidá-lo
para jantarmos juntos."
"Diga a ele que não pode, que já tem compromisso." - Sussurrou a Vagina.
"Hoje não posso, doutor."
"Ora, mais porquê?"
"É que tenho um compromisso."
Silencio do outro lado.
"Posso ligar amanhã? - Insistiu o médico."
"Talvez. Passar bem, doutor."
Desligou.
Ele nunca me enganou desde o início." Falou a Vagina. "Não valem nada. Agora vamos indo."
***
A cidade fervilhava. Os bares lotados de gente. Constantino entrou numa choperia animada. No balcão, pediu um chop de seu agrado. Deu uma golada e respirou fundo:
"Não é uma delícia?" - Perguntou a Vagina. "Agora peça um pra mim, levante esse olhar e procure se divertir."
"Isto não está acontecendo..." Reclamou Constantino.
"É claro que está. Encare os fatos e pare de piscar, isso me irrita."
Pelas tantas, um jovem de porte atlético, escorou-se no balcão, bem próximo de Constantino. Pediu um chop e dirigindo-se á Vagina, puxou conversa:
"Tudo bom, princesa?" sozinha? esperando alguém?"
"Diga a ele que está esperando alguém. Não me obrigue a falar." - Ordenou a Vagina, mordendo os lábios.
"Estamos sim, cavalheiro. Aguardamos alguém."
"Namorado?"
"Não interessa! Diga a ele."
"Não lhe diz respeito, moço!"
"Desculpa então."
E o jovem retirou-se, constrangido.
"Muito bom, Constantino. Viu só como não é nada fácil para nós? Eles não nos deixam em paz um só minuto. Ás vezes é preciso ser deselegantes com eles, mas só ás vezes, entendeu? Alguns até que merecem nossa atenção, outros..."
"Cala essa boca!" Gritou Constantino. As pessoas em volta olharam para ele. Desculpou-se e tudo voltou ao normal.
"Nunca mais fale nesse tom comigo, ouviu seu Constantino?" Protestou a Vagina bastante irritada. "Peça mais chops!"
Após o quinto ou sexto chopm ela pediu para ir ao banheiro. Lá, a cena seria constrangedora se não fosse hilária. Um bêbado adentrou cambaleante ao banheiro e o flagrou inclinado com a testa bem próxima ao bidê:
"O que o senhor está fazendo? Está passando bem?"
Constantino, que por sua vez já estava bem alto dos chops, respondceü:
"Não vê que estou ocupado, urinando pela testa?"
Naquela mesma noite, ele decidiu:
"Amanhã vamos á Igreja!"
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
CAPÍTULO I - A APARIÇÃO
Naquela amanhã ao acordar, Eflúvio Constantino do Espírito Santo sentiu-se muito estranho e foi até ao banheiro averiguar. O que viu no espelho o deixou paralisado. Deixaria qualquer um, eu soponho. Pois que havia ali em sua testa uma abertura de 10 cm que lhe sorria, um sorriso mudo. Contraía-se delicadamente ao leve franzir dos cenhos. Estava viva. Constantino fechou com bastante força os olhos e ficou um tempão assim. Abriu-os novamente e a estranha abertura permanecia ali. Tocou-a levemente com o indicador e ela contraiu-se de novo. Parecia brincar. Ele então sentiu uma coisa esquisita: um prazerzinho tolo, meigo; uma sensação agradável mexendo com todo seu fluxo orgânico. Piscou muitas vezes procurando entender. Massageou demoradamente os grossos lábios e por certo quase orgasmou. Alarmado, ganhou apressado as ruas sem endereçar o olhar a ninguém. Foi procurar um médico:
"Do que se trata, seu Constantino?" Perguntou um médico de cabelos embranquecidos e um ar solenemente cansado.
"Sabe o que é, doutor... é que... bom... como explicar isso..."
"Pode falar, seu Constantino."
"É que, na minha testa..."
"O senhor a machucou, estou vendo. E me parece que estar sangrando."
"Sangrando?" Constantino pulou da cadeira. "Não está não, doutor... quer dizer... pode estar sim. É que talvez ela tenha menstruado."
O médico sorriu, considerando aquilo muito engraçado.
"Sua testa menstrua, seu Constantino?"
"O que nasceu nela sim, doutor."
"E o que nasceu nela, seu Constantino?"
"Uma vagina, doutor. Uma vagina."
Intrigado, o médico se aproximou do paciente. Retirou delicadamente a gaze que lhe vedava a testa e com um olhar grave, examinou o que havia ali. Era de fato uma vagina. Uma vagina rosadinha e de lábios ligeiramente grossos. Ele que não fumava há meses, retirou da gaveta um charuto cubano que sempre guardava para ocasiões excepcionais. Como essas que cercam o mundo e a vida das pessoas. Levantou-se e foi olhar na janela. Caía uma leve garoa naquela manhã sem graça.
"Então, doutor? o que me diz o senhor?"
"Uma anomalia interessante." Respondeu o médico de costas para o paciente. "Mas o que o senhor quer que eu faça, seu Constantino."
"Retire-a daí, doutor."
"Acontece, seu Constantino, é que não sou nenhum especialista em remoção de vaginas."
"E o que eu devo fazer então, doutor?"
"Sugiro que procure um ginecologista para ver se está tudo bem com sua vagina. Em seguida, um especialista nesse caso. É o que sugiro."
Constantino deixou o consultório muito triste. Mas no dia seguinte, já se encontrava numa clínica ginecológica aguardando sua vez. As horas trabalhavam com enxaqueca e algumas mulheres que ali se achavam, olhavam curiosas para ele. Já estava imapaciente. As mãos bem frias. Até que:
"Seu Eflúvio Constantino do Espírito Santo!" (Ele odiava aquele seu primeiro nome. Devo dizer-lhes.) Meio sem jeito, ergueu o indicador:
"É o senhor?"
"S-sim, s-sou eu." E até ga-gue-jou.
"Pode entrar!"
Esquivou-se daqueles olhares condenatórios e adentrou a sala ao lado. Desta vez, foi um jovem médico que o atendeu:
"Onde dói, seu Constantino?"
Em pé, Constantino olhava para o médico esfregando as mãos frias. Suava agora por todos os poros.
"Vamos, sente-se seu Constantino. É natural que na primeira vez seja um pouco constrangedor, mas procure ficar calmo, sim? Pelo que vejo, será apenas um exame de rotina. Dispa-se e vista aquela bata rosa."
"Mas é que..."
"Eu compreendo, seu Constantino, eu compreendo." Ele vestiu a bata rosa e acomodou-se na mesa ginecológica. Afastou bem as pernas enquanto olhava assustado para todos aqueles aparatos medievais em sua volta. O médico pôs-se a examinar-lhe as partes inferiores:
"Doutor, o problema não é aí embaixo." Corrigu ele.
"Ah, não?"
"Não, doutor. É aqui em cima, na testa."
O médico olhou-o com estranheza."
"Retire a gaze e verá." Ele obedeceu. Minutos depois...
"Espantoso!"
"Pois não é, doutor!"
"Como ela foi parar aí?"
Äinda não sei. Pediram-me que eu procurasse um ginecologista antes de ir a um perito."
O médico alcançou um espéculo. Focou a luz na direção da testa dele e tornou a repetir: "
"Mas é mesmo espantoso! Nunca vi coisa igual." Observou. "Alguma disminorréia frequente?"
"Disminorréia, doutor?"
"Alteração extragenital. Dores durante as relações."
"Asseguro-lhe que ela é virgem. Apareceu-me ontem, pela manhã."
"Mas é muito espantoso!"
O jovem médico demorou-se horas a examinar minuciosamente a bela vulva. Estava encantado. Já progredia em Constantino uma leve irritação, quando o médico, enfim, parou de examiná-lo e disse:
"Vista-se, seu Constantino! Eu já terminei."
Vestiu-se ás pressas e foi sentar-se em uma mesa, defronte ao médico:
"Então, doutor?"
O médico jogou o corpo para trás e disse:
"Bom, seu Constantino, antes de tudo, não há nada dce errado com a vagina. Apenas um leve fluxo sanguíneo, o que é natural. Nada de alarmante."
"Mas o que eu faço, doutor?"
O médico tinha agora as mãos apoiando a nuca e um olhar insinuador.
"Vou encaminhá-lo a um especialista nesse tipo de anomalia e ele verá o que pode ser feito. É um caso raro, seu Constantino. Há de convirmos."
E ele foi deixar o paciente até á porta, coisa que não fazia com frequencia.
"Seu Constantino, responda-me uma coisa."
"Pois não, doutor."
"O senhor é casado?" Perguntou o médico olhando direto nos olhos do outro. O olhar do médico era mesmo insinuador. Além do que, segurava demoradamente as mãos já não mais frias de Constantino.
"Solteiro, doutor, por que?"
"Por nada, seu Constantino. Apenas curiosidade minha. Passar bem."
continua amanhã...
"Do que se trata, seu Constantino?" Perguntou um médico de cabelos embranquecidos e um ar solenemente cansado.
"Sabe o que é, doutor... é que... bom... como explicar isso..."
"Pode falar, seu Constantino."
"É que, na minha testa..."
"O senhor a machucou, estou vendo. E me parece que estar sangrando."
"Sangrando?" Constantino pulou da cadeira. "Não está não, doutor... quer dizer... pode estar sim. É que talvez ela tenha menstruado."
O médico sorriu, considerando aquilo muito engraçado.
"Sua testa menstrua, seu Constantino?"
"O que nasceu nela sim, doutor."
"E o que nasceu nela, seu Constantino?"
"Uma vagina, doutor. Uma vagina."
Intrigado, o médico se aproximou do paciente. Retirou delicadamente a gaze que lhe vedava a testa e com um olhar grave, examinou o que havia ali. Era de fato uma vagina. Uma vagina rosadinha e de lábios ligeiramente grossos. Ele que não fumava há meses, retirou da gaveta um charuto cubano que sempre guardava para ocasiões excepcionais. Como essas que cercam o mundo e a vida das pessoas. Levantou-se e foi olhar na janela. Caía uma leve garoa naquela manhã sem graça.
"Então, doutor? o que me diz o senhor?"
"Uma anomalia interessante." Respondeu o médico de costas para o paciente. "Mas o que o senhor quer que eu faça, seu Constantino."
"Retire-a daí, doutor."
"Acontece, seu Constantino, é que não sou nenhum especialista em remoção de vaginas."
"E o que eu devo fazer então, doutor?"
"Sugiro que procure um ginecologista para ver se está tudo bem com sua vagina. Em seguida, um especialista nesse caso. É o que sugiro."
Constantino deixou o consultório muito triste. Mas no dia seguinte, já se encontrava numa clínica ginecológica aguardando sua vez. As horas trabalhavam com enxaqueca e algumas mulheres que ali se achavam, olhavam curiosas para ele. Já estava imapaciente. As mãos bem frias. Até que:
"Seu Eflúvio Constantino do Espírito Santo!" (Ele odiava aquele seu primeiro nome. Devo dizer-lhes.) Meio sem jeito, ergueu o indicador:
"É o senhor?"
"S-sim, s-sou eu." E até ga-gue-jou.
"Pode entrar!"
Esquivou-se daqueles olhares condenatórios e adentrou a sala ao lado. Desta vez, foi um jovem médico que o atendeu:
"Onde dói, seu Constantino?"
Em pé, Constantino olhava para o médico esfregando as mãos frias. Suava agora por todos os poros.
"Vamos, sente-se seu Constantino. É natural que na primeira vez seja um pouco constrangedor, mas procure ficar calmo, sim? Pelo que vejo, será apenas um exame de rotina. Dispa-se e vista aquela bata rosa."
"Mas é que..."
"Eu compreendo, seu Constantino, eu compreendo." Ele vestiu a bata rosa e acomodou-se na mesa ginecológica. Afastou bem as pernas enquanto olhava assustado para todos aqueles aparatos medievais em sua volta. O médico pôs-se a examinar-lhe as partes inferiores:
"Doutor, o problema não é aí embaixo." Corrigu ele.
"Ah, não?"
"Não, doutor. É aqui em cima, na testa."
O médico olhou-o com estranheza."
"Retire a gaze e verá." Ele obedeceu. Minutos depois...
"Espantoso!"
"Pois não é, doutor!"
"Como ela foi parar aí?"
Äinda não sei. Pediram-me que eu procurasse um ginecologista antes de ir a um perito."
O médico alcançou um espéculo. Focou a luz na direção da testa dele e tornou a repetir: "
"Mas é mesmo espantoso! Nunca vi coisa igual." Observou. "Alguma disminorréia frequente?"
"Disminorréia, doutor?"
"Alteração extragenital. Dores durante as relações."
"Asseguro-lhe que ela é virgem. Apareceu-me ontem, pela manhã."
"Mas é muito espantoso!"
O jovem médico demorou-se horas a examinar minuciosamente a bela vulva. Estava encantado. Já progredia em Constantino uma leve irritação, quando o médico, enfim, parou de examiná-lo e disse:
"Vista-se, seu Constantino! Eu já terminei."
Vestiu-se ás pressas e foi sentar-se em uma mesa, defronte ao médico:
"Então, doutor?"
O médico jogou o corpo para trás e disse:
"Bom, seu Constantino, antes de tudo, não há nada dce errado com a vagina. Apenas um leve fluxo sanguíneo, o que é natural. Nada de alarmante."
"Mas o que eu faço, doutor?"
O médico tinha agora as mãos apoiando a nuca e um olhar insinuador.
"Vou encaminhá-lo a um especialista nesse tipo de anomalia e ele verá o que pode ser feito. É um caso raro, seu Constantino. Há de convirmos."
E ele foi deixar o paciente até á porta, coisa que não fazia com frequencia.
"Seu Constantino, responda-me uma coisa."
"Pois não, doutor."
"O senhor é casado?" Perguntou o médico olhando direto nos olhos do outro. O olhar do médico era mesmo insinuador. Além do que, segurava demoradamente as mãos já não mais frias de Constantino.
"Solteiro, doutor, por que?"
"Por nada, seu Constantino. Apenas curiosidade minha. Passar bem."
continua amanhã...
O HOMEM COM A ABERTURA NA TESTA - RESENHA
Imaginem um dia acordar e descobrir uma estranha abertura em sua testa. E pior: num rápido exame mais apurado, concluir que a tal abertura se trata de uma vagina. Falante. Esse é o mote dessa estória do escritor amazonense Márcio Santana.
A partir do absurdo acontecimento,desfilam ao longo de quase cem páginas, tipos marginais que acompanham a estranha rotina do funcionário de repartição Constantino e sua nova "companheira", que ganha o nome de Cíntia. A vagina e seu descontente portador passam por uma constrangedora visita ao ginecologista, aturam cantadas em bares, vão ao confessionário, perdem o emprego, tornam-se atração de circo e vivem uma conturbada relação de amor e ódio.
Márcio Santana imprime um ritmo ágil e linguagem simples típicos do conto, gênero literário por onde também se aventura. Essas características fazem de "O Homem com a abertura na testa", uma leitura de supetão, que começa tão rápido quanto acaba, sem perder suas qualidades. Interessante notar o uso contido nas descrições das personagens, delineando em poucas linhas as personalidades inegrantes de Constantino, Padre Fritz e, em especial a temperamental vagina Cíntia, deixando ao gosto do leitor imaginar como eles são e, ao mesmo tempo, dando algumas indicações bem específicas para tal.
"O Homem com a abertura na testa", mostra uma notável evolução nos escritos de seu autor, que também é o fundador da Revista Alternativa Sirrose.
A estória é uma conquista não apenas por seu conteúdo, mas por trazer o frescor de autores contemporâneos ainda a conquistar seu devido espaço na literatura local.
Susy Freitas é jornalista e poeta. Colaboradora da Revista Alternativa Sirrose.
A partir do absurdo acontecimento,desfilam ao longo de quase cem páginas, tipos marginais que acompanham a estranha rotina do funcionário de repartição Constantino e sua nova "companheira", que ganha o nome de Cíntia. A vagina e seu descontente portador passam por uma constrangedora visita ao ginecologista, aturam cantadas em bares, vão ao confessionário, perdem o emprego, tornam-se atração de circo e vivem uma conturbada relação de amor e ódio.
Márcio Santana imprime um ritmo ágil e linguagem simples típicos do conto, gênero literário por onde também se aventura. Essas características fazem de "O Homem com a abertura na testa", uma leitura de supetão, que começa tão rápido quanto acaba, sem perder suas qualidades. Interessante notar o uso contido nas descrições das personagens, delineando em poucas linhas as personalidades inegrantes de Constantino, Padre Fritz e, em especial a temperamental vagina Cíntia, deixando ao gosto do leitor imaginar como eles são e, ao mesmo tempo, dando algumas indicações bem específicas para tal.
"O Homem com a abertura na testa", mostra uma notável evolução nos escritos de seu autor, que também é o fundador da Revista Alternativa Sirrose.
A estória é uma conquista não apenas por seu conteúdo, mas por trazer o frescor de autores contemporâneos ainda a conquistar seu devido espaço na literatura local.
Susy Freitas é jornalista e poeta. Colaboradora da Revista Alternativa Sirrose.
APRESENTAÇÃO - O HOMEM COM A ABERTURA NA TESTA
Os papéis que tremem á brisa quente de uma tarde de sábado querem a liberdade de correr livre pela Joaquim Nabuco como papéis ordinários que ao impulso de uma lufada entrecortam os passos pesados dos transeuntes minguados do centro de Manaus. Para o escritor, entretanto, ali estava a sua obra expressa, para além da mera ideia de entidade: a experiência que se construia desde a sua boca se constitui aos meus ouvidos como a revelação inspirada de que fala Octávio Paz - a recriação de nós mesmos.
De repente eu não estava sentada em frente ao Diretório Central dos Estudantes fumando meu pigarrento Lucky Strike, não. Tinha sido tragada pela experiência ancestral de ouvir a uma estória e era ao mesmo tempo a indiazinha ouvindo as cosmogonias da sua tribo, a senhorita medieval observando com o povo o auto que traduz a fé e a mulher solitária que se senta ao fundo da sala de cinema, sedentas pelo enredar da história que se configura nessa tradição humanizadora de contar suas próprias histórias com metáforas, com o sagrado.
"O Homem com a abertura na testa" que Márcio Santana teve o bom gosto de ler para mim é, como toda revelação inspirada, uma fábula de delicada poesia de forças (que se confrontam e convergem para o humano em cada um) femininas e masculinas; fábula construída com a linguagem brutal do cotidiano fantástico no qual se inserem as personagens. Aponta com sarcasmo para a plenitude, onde essas forças opostas se complementariam numa desequilibrada harmonia onde o sexo é a energia potencial das ações desencadeadas.
É com esse texto que Márcio Santana dá os primeiros passos dentro da construção do fantástico e se esgueira pelo patamar de uma literatura amazonense que me parece mais comprometida com a Manaus do século XXI- a que tantas vezes nos soa tão estranha quanto as situações arquitetadas nessa novela. E se esgueira estando próxima das praças, das pessoas, da loucura dos caminhos baixos da cidade, sempre se utilizando de um olhar poeticamente terrorista.
"O Homem com a abertura na testa" também já cabe no que ítalo Calvino nos fala sobre o estilo. "(...) o elemento sobrenatural que ocupa o centro desses enredos aparece sempre carregado de sentido, como a irrupção do inconsciente, do reprimido, do esquecido, do que se distanciou de nossa atenção racional (...)", pois que trabalha com alegorias da realidade social na qual nos encontramos. Sociedade essa que dialoga com nuances do gênero, com camadas de sexualidade, com a aceitação de novas epistemologias comportamentais que nos permitem encontrar o feminino no interior do masculino e vice-versa.
Daniela Moraes.
De repente eu não estava sentada em frente ao Diretório Central dos Estudantes fumando meu pigarrento Lucky Strike, não. Tinha sido tragada pela experiência ancestral de ouvir a uma estória e era ao mesmo tempo a indiazinha ouvindo as cosmogonias da sua tribo, a senhorita medieval observando com o povo o auto que traduz a fé e a mulher solitária que se senta ao fundo da sala de cinema, sedentas pelo enredar da história que se configura nessa tradição humanizadora de contar suas próprias histórias com metáforas, com o sagrado.
"O Homem com a abertura na testa" que Márcio Santana teve o bom gosto de ler para mim é, como toda revelação inspirada, uma fábula de delicada poesia de forças (que se confrontam e convergem para o humano em cada um) femininas e masculinas; fábula construída com a linguagem brutal do cotidiano fantástico no qual se inserem as personagens. Aponta com sarcasmo para a plenitude, onde essas forças opostas se complementariam numa desequilibrada harmonia onde o sexo é a energia potencial das ações desencadeadas.
É com esse texto que Márcio Santana dá os primeiros passos dentro da construção do fantástico e se esgueira pelo patamar de uma literatura amazonense que me parece mais comprometida com a Manaus do século XXI- a que tantas vezes nos soa tão estranha quanto as situações arquitetadas nessa novela. E se esgueira estando próxima das praças, das pessoas, da loucura dos caminhos baixos da cidade, sempre se utilizando de um olhar poeticamente terrorista.
"O Homem com a abertura na testa" também já cabe no que ítalo Calvino nos fala sobre o estilo. "(...) o elemento sobrenatural que ocupa o centro desses enredos aparece sempre carregado de sentido, como a irrupção do inconsciente, do reprimido, do esquecido, do que se distanciou de nossa atenção racional (...)", pois que trabalha com alegorias da realidade social na qual nos encontramos. Sociedade essa que dialoga com nuances do gênero, com camadas de sexualidade, com a aceitação de novas epistemologias comportamentais que nos permitem encontrar o feminino no interior do masculino e vice-versa.
Daniela Moraes.
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